Artigo por
Ítalo Cunha
Escrita em 1978, a música esperou quase uma década para chegar ao disco e explodiu justamente quando o Brasil tentava se reconstruir

Antes de virar um dos maiores gritos do rock brasileiro, Que País É Este foi uma gravação simples, feita por um Renato Russo adolescente em Brasília. A música nasceu em 1978, ficou anos sem uma versão oficial de estúdio e só chegou ao grande público quando o Brasil atravessava uma fase decisiva de redemocratização. A parte mais curiosa é que ela não ficou completamente esquecida, como muitas versões contam. O que permaneceu guardado foi a gravação caseira, enquanto a canção já circulava nos shows do Aborto Elétrico.
Renato Russo escreveu Que País É Este quando ainda fazia parte do Aborto Elétrico, banda fundamental para o surgimento do rock de Brasília. O grupo misturava a urgência do punk com a revolta de jovens que viviam em um país governado pela ditadura militar, com censura, repressão e pouca abertura para críticas políticas.
A letra não tenta criar uma metáfora complicada. Ela vai direto ao ponto, com frases curtas e uma pergunta que parece simples, mas nunca termina de ser respondida. A música fala de corrupção, violência, desrespeito às leis e de uma sensação coletiva de abandono.
Quando Renato escreveu a composição, a Constituição de 1988 ainda nem existia. A Assembleia Nacional Constituinte só começou seus trabalhos em 1º de fevereiro de 1987, e a Carta foi promulgada em 5 de outubro de 1988, conforme os registros do Senado Federal. A documentação oficial do Senado mostra que o país estava literalmente tentando escrever uma nova base política enquanto a canção finalmente ganhava as ruas.
É aí que surge uma das ironias mais fortes da história. Uma música criada durante a ditadura chegou às lojas justamente quando o Congresso discutia as regras do país que viria depois dela.
A história da “fita escondida no quarto” funciona muito bem como narrativa, mas precisa de um ajuste. Que País É Este não ficou nove anos sem ser ouvida. O Aborto Elétrico já apresentava a música em seus shows, e ela fazia parte do repertório conhecido pelos frequentadores da cena punk de Brasília.
O que aconteceu foi diferente. A composição permaneceu sem uma gravação comercial definitiva durante quase uma década. De acordo com o site oficial de Renato Russo, a canção não havia sido registrada porque a banda esperava que o Brasil melhorasse. Se o país mudasse, talvez a letra perdesse a força.
A aposta não deu certo. Ou, pelo menos, não do jeito que Renato esperava.
A música ficou guardada porque seu autor imaginava que ela poderia envelhecer. No fim, aconteceu o oposto. O Brasil mudou de regime, ganhou uma nova Constituição e voltou a eleger presidentes, mas muitos dos problemas citados na letra continuaram reconhecíveis para diferentes gerações.
Essa é uma das razões pelas quais a composição ainda provoca tanta reação. Ela não descreve apenas um governo ou um momento específico. Seu alvo é mais amplo, quase como um espaço vazio no qual cada geração coloca as próprias frustrações.
Em 1987, a Legião Urbana precisava entregar um novo álbum para a EMI. O grupo já havia lançado dois trabalhos de grande repercussão, mas não tinha um repertório completamente inédito pronto para a gravadora.
A solução foi buscar músicas antigas do Aborto Elétrico e do período em que Renato se apresentava como Trovador Solitário. O terceiro álbum da Legião, lançado em novembro daquele ano, recebeu o título Que País É Este 1978/1987, uma forma bastante clara de mostrar a distância entre a origem das faixas e o momento em que elas finalmente foram gravadas.
O próprio nome do disco parece contar uma história. De um lado, 1978 representa a juventude punk, os bares de Brasília e a raiva de quem ainda não tinha espaço nos grandes meios de comunicação. Do outro, 1987 mostra uma banda enorme, contratada por uma multinacional e capaz de transformar uma antiga música de protesto em sucesso nacional.
O registro oficial sobre o Aborto Elétrico confirma como o repertório daquela banda serviu de base tanto para a Legião Urbana quanto para o Capital Inicial. Canções como Que País É Este, Química e Veraneio Vascaína atravessaram a divisão dos grupos e ajudaram a formar o vocabulário do rock de Brasília.
Existe também uma disputa curiosa por trás desse resgate. Como Renato e seus antigos companheiros seguiram caminhos diferentes, havia uma espécie de corrida para registrar aquelas composições antes que elas fossem gravadas por outro grupo. A Legião acabou transformando o material em um disco oficial, enquanto o Capital Inicial também levou músicas da antiga banda para sua própria trajetória.
A curiosidade sobre o desempenho de Que País É Este nas rádios precisa ser tratada com alguma cautela. Não existe uma única parada nacional definitiva que reúna todos os critérios de execução das emissoras brasileiras naquele período.
Ainda assim, levantamentos retrospectivos de airplay colocam Livin’ on a Prayer, do Bon Jovi, em primeiro lugar entre as músicas mais tocadas de 1987, com Que País É Este logo atrás. Uma dessas compilações históricas apresenta justamente esse resultado.
O contraste é delicioso. De um lado, o rock de arena norte-americano, com refrão gigantesco, guitarra brilhante e uma narrativa sobre trabalhadores tentando sobreviver. Do outro, uma banda brasileira cantando sobre a crise política e social de um país recém-saído da ditadura.
Se o levantamento estiver correto, Renato Russo ficou atrás apenas do Bon Jovi naquele ano. Mais do que uma curiosidade estatística, isso mostra que o público brasileiro não estava dividido entre música estrangeira e música nacional. O mesmo ouvinte podia cantar Livin’ on a Prayer no rádio e, minutos depois, berrar o refrão da Legião em uma festa, uma escola ou um show.
O rock brasileiro não precisou abandonar a crítica para se tornar popular. Pelo contrário, a indignação virou parte do refrão.
A versão caseira da música permaneceu longe do público por muitos anos. Depois da morte de Renato Russo, em 1996, a família começou a organizar o acervo do artista com o apoio do jornalista e pesquisador Marcelo Fróes.
Em 2008, Carmem Teresa, irmã do músico, localizou a gravação original dentro da casa da família. O material entrou no álbum póstumo O Trovador Solitário, lançado por Fróes. A Folha de S.Paulo informou que a fita reunia gravações da fase anterior à Legião, feitas no quarto do cantor.
A compilação também trouxe registros informais de outras músicas. Segundo o UOL Música, Que País É Este aparece como uma faixa especial, registrada em 1978, enquanto boa parte do restante do material pertence ao período do Trovador Solitário.
Ouvir essa versão é diferente de escutar o arranjo da Legião. Não existe a mesma força de bateria, baixo e guitarra, mas há algo mais cru. A gravação permite imaginar o adolescente que compôs aquela letra antes de saber que um dia seria tratado como porta-voz de uma geração.
Eu acho que a força de Que País É Este está justamente na falta de uma resposta fechada. A música não oferece um programa político, não aponta um salvador e não promete que tudo vai melhorar depois do refrão. Ela apenas registra o espanto de quem olha para o próprio país e não reconhece as regras que deveriam organizá-lo.
Esse vazio permite que a canção volte em diferentes momentos. Ela reaparece em protestos, estádios, festas, vídeos nas redes sociais e discussões políticas. Cada pessoa encontra uma justificativa diferente para cantá-la.
O problema é que uma música tão conhecida também pode virar um gesto automático. Gritar o título é fácil. Mais difícil é discutir quais instituições falharam, quem se beneficia da desordem e o que cada cidadão aceita como normal no cotidiano.
É parecido com algumas obras de ficção científica, como Psycho-Pass ou V de Vingança. O público reconhece a opressão, vibra contra o sistema e compartilha frases marcantes, mas a obra só cumpre seu papel quando o incômodo continua depois da cena ou do refrão.
Que País É Este não se tornou eterna porque o Brasil nunca mudou. Ela continua viva porque toda mudança brasileira parece carregar problemas antigos para dentro de uma nova fase.
A fita de Renato Russo não registrou apenas uma música. Registrou uma expectativa frustrada. O compositor queria que o país melhorasse antes que a canção fosse lançada. Quando ela finalmente chegou ao público, a história mostrou que a letra ainda tinha muito a dizer.
Talvez esse seja o detalhe mais bonito e mais desconfortável de todos. Renato tentou escrever uma música que pudesse envelhecer. O Brasil tratou de mantê-la jovem.
P: Quando “Que País É Este” foi escrita?
R: Renato Russo escreveu a música em 1978, durante o período em que fazia parte do Aborto Elétrico. A composição só ganhou uma gravação comercial com a Legião Urbana em 1987.
P: A música ficou realmente escondida por nove anos?
R: Não exatamente. O Aborto Elétrico já tocava a canção em shows. O que ficou guardado por quase uma década foi a gravação oficial, não a existência da composição.
P: Em qual álbum da Legião Urbana está “Que País É Este”?
R: A música aparece no terceiro álbum da banda, lançado em 1987 com o título Que País É Este 1978/1987.
P: Quando a gravação caseira de Renato Russo foi lançada?
R: A versão do quarto foi lançada em 2008, no álbum póstumo O Trovador Solitário, depois que Carmem Teresa localizou a fita no acervo da família.
P: “Que País É Este” foi a música mais tocada de 1987?
R: Levantamentos retrospectivos de execução em rádios colocam a faixa em segundo lugar geral, atrás de Livin’ on a Prayer, do Bon Jovi. Ela aparece como uma das músicas brasileiras mais tocadas daquele ano, mas as listas usam metodologias diferentes.
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