Artigo por
Ítalo Cunha
De Shakermaker a Step Out, entenda por que a banda de Noel Gallagher pagou, alterou créditos e retirou uma faixa do álbum

O Oasis queria ser grande como os Beatles, mas acabou entrando para a história por um motivo que provavelmente Noel Gallagher preferiria esquecer: a banda foi acusada de copiar músicas em três momentos decisivos da carreira. Coca-Cola, Neil Innes e Stevie Wonder aparecem nessa história, que mistura acordos financeiros, créditos de composição, uma faixa retirada de um álbum e uma ironia perfeita envolvendo propaganda.
O mais curioso é que os casos não são exatamente iguais. Em um deles, a semelhança era tão evidente que a música foi alterada. Em outro, o compositor reivindicou participação nos royalties. No terceiro, o Oasis preferiu retirar a faixa do disco para evitar uma disputa maior.
A pergunta não é apenas se Noel Gallagher copiava ou homenageava outros artistas. A questão mais interessante é entender como uma banda tão apaixonada pela história do rock acabou sendo obrigada a responder judicialmente pelo modo como usava essa história.
Em 1994, o Oasis ainda estava construindo sua identidade. A banda havia lançado Definitely Maybe, um álbum barulhento, confiante e cheio de referências ao rock britânico. Entre as faixas estava Shakermaker, lançada como single em junho daquele ano. O site oficial do Oasis registra a faixa como um dos primeiros lançamentos importantes do grupo.
O problema apareceu quando ouvintes perceberam que a melodia e alguns trechos da música lembravam demais I’d Like to Teach the World to Sing (In Perfect Harmony), canção associada ao famoso comercial da Coca-Cola de 1971. A música havia sido gravada pelo grupo The New Seekers depois de nascer como uma ideia publicitária ligada à campanha “Hilltop”, conhecida no Brasil pela imagem de jovens cantando juntos em uma colina.
A história costuma ser resumida como “a Coca-Cola processou o Oasis”. A versão mais precisa é que os titulares dos direitos ligados à canção e seus compositores questionaram o uso da melodia e de elementos associados ao jingle. Como a música estava fortemente ligada à marca, a Coca-Cola acabou se tornando a personagem mais lembrada do episódio.
O Oasis fez um acordo para encerrar a disputa. A cifra mais repetida é de 500 mil dólares, embora existam relatos que mencionem cerca de 175 mil libras. Como os termos completos do acordo não foram divulgados, o mais seguro é tratar esses valores como estimativas publicadas pela imprensa, e não como uma quantia oficial detalhada em documento público.
Noel Gallagher reagiu com o humor provocador que sempre marcou sua personalidade. Depois do problema, passou a brincar que a banda beberia Pepsi. A piada funcionou porque transformou uma derrota financeira em parte da mitologia do Oasis. A banda pagou, mas conseguiu sair do episódio com uma frase que os fãs repetiam como se fosse mais um refrão.
O detalhe menos engraçado é que Shakermaker não era apenas parecida com a música da Coca-Cola. Ela também carregava um método que Noel usaria várias vezes: pegar uma referência conhecida, colocar uma nova atitude em cima e confiar que a personalidade do Oasis seria suficiente para tornar o resultado próprio.
No final de 1994, o Oasis lançou Whatever, uma música que parecia feita para declarar independência. A letra falava sobre liberdade, enquanto o arranjo com cordas dava à faixa um ar grandioso e sentimental. O grupo parecia pronto para ocupar o lugar de grande banda britânica da década.
Só havia um detalhe. Parte da melodia lembrava How Sweet to Be an Idiot, música de 1973 escrita por Neil Innes.
Innes era um compositor, humorista e músico ligado ao universo de Monty Python. Ele também criou os Rutles, uma banda fictícia que parodiava os Beatles com uma precisão tão grande que a brincadeira se tornou uma obra cult por conta própria.
A ironia é deliciosa. O Oasis sempre deixou claro que admirava os Beatles e queria recuperar a grandeza daquela tradição. Porém, em Whatever, a banda acabou sendo acusada de utilizar uma melodia associada justamente ao homem que havia criado uma paródia dos Beatles.
Dessa vez, não houve uma retirada imediata da música. O acordo garantiu a Neil Innes crédito como compositor e participação nos royalties. A faixa continuou circulando, mas deixou de ser atribuída exclusivamente a Noel Gallagher.
A disputa também revelou uma diferença importante entre referência e cópia. O Oasis não reproduziu a música inteira de Innes, mas a semelhança em uma linha melódica específica foi suficiente para gerar uma reivindicação. A revista especializada Sound on Sound registra a relação entre a gravação do Oasis e o crédito concedido a Neil Innes.
Para o ouvinte comum, oito notas podem parecer pouca coisa. Para uma composição, uma sequência curta pode ser a parte mais reconhecível de uma música. O problema não é medir apenas a quantidade copiada. Também importa saber se o trecho utilizado funciona como a identidade musical da obra original.
Whatever continua sendo uma das músicas mais lembradas do Oasis, mas sua ficha técnica carrega uma informação que muda a percepção da faixa. A canção fala sobre liberdade, mas nasceu cercada por uma negociação que obrigou Noel Gallagher a dividir oficialmente o controle sobre sua criação.
O terceiro episódio aconteceu durante a preparação de (What’s the Story) Morning Glory?, lançado em 1995. O álbum seria o trabalho que transformaria o Oasis em um fenômeno global, com músicas como Wonderwall, Don’t Look Back in Anger, Champagne Supernova e a faixa-título.
Uma das músicas planejadas para o disco era Step Out. O problema estava no refrão, considerado muito parecido com Uptight (Everything’s Alright), clássico de Stevie Wonder lançado pela Motown em 1965.
A semelhança não era apenas uma impressão distante. A estrutura melódica do refrão de Step Out se aproximava de maneira evidente da música de Wonder. Por isso, os responsáveis pelos direitos autorais ligados a Uptight poderiam exigir participação na composição e nos ganhos da faixa.
O Oasis decidiu retirar Step Out da versão final de Morning Glory. A faixa não desapareceu completamente. Ela foi lançada posteriormente como lado B do single Don’t Look Back in Anger, com créditos de Noel Gallagher, Stevie Wonder, Henry Cosby e Sylvia Moy.
A sequência mostra uma mudança de postura. Em Shakermaker, o grupo aceitou pagar um acordo. Em Whatever, acrescentou um compositor aos créditos. Em Step Out, preferiu evitar que o álbum fosse lançado com uma disputa ainda maior. Noel Gallagher já explicou em entrevista que a faixa foi associada a Stevie Wonder por causa da semelhança com Uptight.
Também é preciso corrigir uma simplificação comum: não existe confirmação de que Stevie Wonder tenha pessoalmente escutado a faixa e exigido sua retirada. O mais seguro é dizer que os titulares dos direitos ligados à composição identificaram o problema e que o Oasis tomou medidas para evitar complicações legais.
Chamar tudo de plágio pode parecer simples, mas não explica completamente o caso. O Oasis era uma banda construída sobre referências. Noel Gallagher aprendeu a tocar guitarra ouvindo discos de outras bandas e nunca tentou esconder sua admiração por Beatles, Rolling Stones, T. Rex, Slade e diversos artistas que vieram antes.
Existe uma diferença entre usar uma linguagem musical conhecida e reproduzir uma melodia identificável. Uma banda pode tocar com guitarras distorcidas, usar um refrão coletivo ou construir uma balada com cordas sem necessariamente copiar uma obra específica. O problema surge quando a referência deixa de ser apenas uma influência e começa a ocupar o lugar da criação original.
Noel parecia acreditar que a atitude mudaria tudo. A lógica era quase a seguinte: se a música tivesse uma nova letra, uma nova voz e a energia do Oasis, o resultado se tornaria outra coisa. Em alguns casos, funcionou artisticamente. Em outros, a melodia original continuou aparecendo por baixo da gravação.
Isso não apaga o talento do compositor. Também não transforma automaticamente todas as músicas da banda em fraude. O Oasis tinha uma capacidade rara de criar refrões imediatos, performances gigantescas e canções que pareciam pertencer ao público desde a primeira audição. Porém, a banda também confiava demais na própria personalidade.
Esse é o ponto mais difícil de contestar: intenção e impacto não são a mesma coisa. Noel podia não ter planejado copiar determinada música, mas a semelhança ainda poderia afetar os autores originais. Quando um trecho protegido é usado em uma obra que vende milhões de cópias, não basta dizer que tudo aconteceu sem querer.
A história ganhou um último capítulo em 2011, quando a Coca-Cola utilizou a composição de Whatever em uma campanha publicitária. O episódio foi tratado como uma vingança divertida do destino: a marca associada ao primeiro grande problema do Oasis agora aparecia usando uma música do grupo.
Mas existe uma nuance importante. O comercial não usou simplesmente a gravação original do Oasis. A campanha contou com uma versão interpretada por um coral infantil, o Young People’s Chorus of New York City. Registros da campanha descrevem a música do anúncio como uma versão de Whatever cantada por um coro.
Por isso, não é correto afirmar com certeza que “a Coca-Cola pagou o Oasis” sem explicar a cadeia de direitos envolvidos. O que podemos afirmar é que a composição foi licenciada para uma campanha da marca e que os titulares dos direitos autorais participaram dessa autorização. A gravação utilizada no comercial não era a mesma lançada pelo Oasis.
Ainda assim, a ironia cultural permanece. Uma banda que foi ridicularizada por se apropriar de uma melodia ligada à Coca-Cola acabou tendo uma de suas canções associada a uma nova campanha da empresa. No rock, poucas histórias fecham um círculo com tanta elegância.
Financeiramente, a banda perdeu dinheiro e precisou dividir créditos. Artisticamente, porém, esses episódios ajudaram a alimentar a própria lenda do grupo. O Oasis era arrogante, nostálgico, debochado e apaixonado pela música que veio antes. As acusações de cópia expuseram o lado mais frágil dessa fórmula, mas também tornaram a trajetória da banda mais humana.
O grupo queria soar eterno. Só que a eternidade não combina muito bem com uma banda que tenta esconder suas fontes.
Para mim, o legado do Oasis não depende de fingir que Noel Gallagher criou tudo do zero. O valor da banda está na maneira como ela reorganizou referências antigas e transformou aquele material em hinos de uma geração. O problema é que algumas dessas referências atravessaram a linha da homenagem e exigiram acordo, crédito ou retirada.
No fim, fica uma lição que serve para qualquer músico: influência é inevitável, mas responsabilidade também faz parte da criação. O Oasis provou que uma música pode sobreviver a uma acusação de cópia. O que ela não pode fazer é fingir que ninguém perceberá de onde veio.
Para quem quiser conhecer essa história em uma versão mais objetiva, com as comparações musicais e a ironia envolvendo a Coca-Cola, o vídeo do Cabra Geeki está logo abaixo. Assista ao conteúdo e tire sua própria conclusão: o Oasis estava homenageando seus ídolos ou abusando da inspiração?
FAQ
P: O Oasis foi processado por copiar uma música da Coca-Cola?
R: Shakermaker foi questionada por sua semelhança com I’d Like to Teach the World to Sing, canção associada a um famoso comercial da Coca-Cola. O Oasis fez um acordo com os titulares dos direitos, mas os valores divulgados variam conforme a moeda e a fonte.
P: Neil Innes recebeu dinheiro por causa de Whatever?
R: Sim. Após a semelhança com How Sweet to Be an Idiot, Neil Innes passou a ser creditado como compositor de Whatever e recebeu participação nos royalties. A música continuou sendo lançada pelo Oasis.
P: Por que Step Out foi retirada de Morning Glory?
R: O refrão foi considerado muito parecido com Uptight (Everything’s Alright), de Stevie Wonder. A faixa acabou retirada do álbum e lançada posteriormente como lado B de Don’t Look Back in Anger, com créditos compartilhados.
P: A Coca-Cola usou a gravação original de Whatever em 2011?
R: Não. A campanha utilizou uma versão da música interpretada por um coral infantil. A composição foi licenciada, mas o anúncio não apresentou simplesmente a gravação original do Oasis.
P: O Oasis era uma banda de plágio?
R: A banda tinha forte hábito de trabalhar com referências de outros artistas, especialmente do rock britânico. Porém, os casos precisam ser analisados separadamente, pois envolveram situações diferentes, como acordos, créditos compartilhados e retirada de música.
Material consultado na apuração desta matéria.
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