Artigo por
Ítalo Cunha
De Lucy in the Sky with Diamonds a Beautiful Boy, a história de Julian e Sean expõe o homem por trás do mito dos Beatles

John Lennon escreveu algumas das canções mais bonitas da história da música sobre os próprios filhos, mas sua trajetória como pai está longe de ser uma história perfeita. Julian inspirou faixas eternas dos Beatles, enquanto Sean recebeu a presença de um John muito mais dedicado e disposto a interromper a carreira para cuidar da família. O contraste é doloroso. Como alguém capaz de transformar carinho, culpa e medo em música podia ser tão ausente na vida real?
Essa pergunta não diminui a genialidade de Lennon. Pelo contrário. Ela torna o personagem mais humano, contraditório e difícil de colocar em um pedestal. Por trás das canções há um pai tentando se explicar, compensar ausências e, em alguns momentos, construir uma relação que ele mesmo ajudou a quebrar.
John Charles Julian Lennon nasceu em 8 de abril de 1963, filho de John Lennon e Cynthia Powell. A chegada aconteceu enquanto os Beatles ainda estavam crescendo em velocidade absurda. O grupo estava prestes a conquistar o mundo, e John vivia dividido entre a vida familiar e uma carreira que exigia viagens, gravações e exposição constante.
A infância de Julian também ficou marcada pelo divórcio dos pais, em 1968. John se aproximou de Yoko Ono e se afastou de Cynthia e do próprio filho. É justamente nesse período que aparecem algumas das histórias mais conhecidas envolvendo Julian e as músicas dos Beatles.
A primeira delas nasceu de um desenho infantil.

Julian voltou da escola com um desenho de uma colega chamada Lucy. Ao explicar a imagem, teria dito que era Lucy no céu com diamantes. John transformou a frase em uma das músicas mais psicodélicas de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
Durante décadas, muita gente tratou o título como uma referência direta às iniciais de LSD. A associação fazia sentido para o público, já que a música tem imagens surreais e foi criada em uma fase de forte experimentação dos Beatles. John, porém, insistia que a inspiração imediata veio do desenho do filho.
O mais interessante é que a canção não parece uma música infantil tradicional. John pegou uma lembrança simples de Julian e transformou aquilo em uma viagem visual, cheia de personagens estranhos e cenários impossíveis. A imaginação de uma criança virou matéria-prima para uma obra que adultos passaram décadas tentando interpretar.
Essa é uma das primeiras contradições da relação entre os dois. Julian talvez tenha oferecido ao pai uma das imagens mais famosas de sua carreira, mas não recebeu de John a mesma presença constante que aparece na música.
Em 1968, Paul McCartney foi visitar Cynthia e Julian durante o processo de separação. No caminho, começou a pensar em uma música para confortar o menino. A ideia inicial era “Hey Jules”, uma forma carinhosa de chamar Julian, mas o nome acabou mudando para “Jude”.
A música foi creditada à dupla Lennon-McCartney, como praticamente todas as composições dos Beatles naquele período, mas Paul foi o principal responsável pela criação. A própria história contada por Paul aparece em registros sobre a composição de “Hey Jude”.
A situação tem uma ironia que sempre me chama atenção. Uma das canções mais acolhedoras associadas à infância de Julian foi escrita pelo parceiro de banda do pai, não pelo próprio John. Paul percebeu a dor daquela criança e tentou oferecer uma espécie de abraço em forma de música.
Julian já contou que teve uma relação complicada com a faixa. Durante muito tempo, “Hey Jude” lembrava a separação dos pais e carregava uma sensação desconfortável. Mais tarde, ele passou a enxergar também o carinho de Paul naquela história.
A canção, portanto, não é apenas um clássico dos Beatles. Ela também registra um momento em que Paul ocupou um espaço emocional que John havia deixado vazio.
No mesmo ano, John escreveu “Good Night” para Julian. A faixa encerra o Álbum Branco e tem uma atmosfera de canção de ninar, muito distante do lado agressivo e experimental que costuma ser associado ao compositor.
Mas quem canta não é John. É Ringo Starr, com um arranjo orquestral conduzido por George Martin. A página oficial dos Beatles confirma que Ringo é o único integrante do grupo a aparecer na gravação. O registro está disponível no site oficial da banda.
John teria considerado a música sentimental demais para interpretá-la. A decisão é curiosa porque, ao entregar a canção para Ringo, ele também afastou a própria voz de uma mensagem que havia sido escrita para o filho.
Ringo tinha uma maneira calorosa e quase desajeitada de cantar, o que combinou com a delicadeza da faixa. Ainda assim, existe algo melancólico em perceber que Julian recebeu uma música de ninar composta pelo pai, mas não necessariamente na voz dele.
Depois da separação de Cynthia, John e Julian passaram longos períodos afastados. A reaproximação aconteceu durante o chamado “fim de semana perdido” de Lennon, período em que ele ficou separado de Yoko Ono e manteve um relacionamento com May Pang.
May foi decisiva para que Julian e John voltassem a conviver com mais frequência. Em 1974, Julian visitou o pai no estúdio e acabou sentado na bateria enquanto John tocava piano. A brincadeira foi registrada durante a gravação de “Ya Ya”, uma versão de uma música de Lee Dorsey.
Julian tinha 11 anos e não sabia que aquele momento seria aproveitado no disco Walls and Bridges. A página oficial de John Lennon credita Julian na bateria e John no piano e nos vocais. O material está listado nos créditos oficiais do álbum.
É uma gravação curta, quase casual, mas talvez seja o registro musical mais humano dos dois. Não existe a grandiosidade de “Lucy” ou “Hey Jude”. Há apenas um pai e um filho dividindo uma brincadeira.
Julian teria feito uma observação bem-humorada depois, dizendo que teria tocado melhor se soubesse que a gravação seria lançada. A frase parece simples, mas mostra a diferença entre participar de uma sessão com o pai e ser tratado como parte de uma produção histórica.

Sean Lennon nasceu em 9 de outubro de 1975, no mesmo dia do aniversário de 35 anos de John. Depois do nascimento, John interrompeu a carreira musical por aproximadamente cinco anos para acompanhar o crescimento do filho.
Durante esse período, Lennon se afastou dos palcos e assumiu uma rotina doméstica. Ele cuidava de Sean, cozinhava, fazia pão e acompanhava a família no Dakota, em Nova York. A pausa terminou quando Sean começou a crescer e John voltou ao estúdio para trabalhar em Double Fantasy.
Foi para Sean que John escreveu “Beautiful Boy (Darling Boy)”, uma das músicas mais abertamente afetivas de sua carreira solo. A composição não fala de um filho visto de longe. Ela transmite a intimidade de um pai que acompanha o medo, o sono e as pequenas inseguranças de uma criança.
O contraste com Julian é inevitável. John teve com Sean uma presença que não conseguiu oferecer ao primeiro filho. Existem razões para isso, incluindo mudanças pessoais, maturidade e o fato de Lennon ter alcançado uma fase mais tranquila da vida. Porém, compreender os motivos não apaga as consequências.
Em uma entrevista de 1980, John falou sobre a diferença entre os filhos e disse que Sean havia sido planejado, enquanto Julian teria surgido de uma gravidez não planejada. A forma como ele descreveu o nascimento do primeiro filho, associando-o a uma garrafa de uísque em uma noite de sábado, foi extremamente dolorosa para Julian.
O problema não está apenas na frase. Está no fato de ela ter sido dita publicamente e em um momento em que Julian ainda era jovem. Para o filho, aquilo poderia soar como uma declaração de que sua existência tinha sido um acidente, enquanto Sean representava uma escolha consciente.
Poucos meses depois, em 8 de dezembro de 1980, John Lennon foi assassinado em Nova York. Julian tinha 17 anos. Sean tinha apenas cinco.
Uma canção pode reparar alguma coisa? Talvez não. Mas pode preservar uma intenção. “Good Night” mostra que John sentia carinho por Julian. “Beautiful Boy” mostra que ele conseguiu expressar esse carinho com mais presença quando Sean nasceu. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo: John amava os filhos e falhou profundamente com um deles.
Julian contou que, quando era criança, John disse que enviaria uma pena branca caso morresse e tivesse alguma maneira de avisar que estava bem. A história ganhou outro significado em março de 1992, quando Julian recebeu uma pena branca de integrantes do povo Mirning, na Austrália.
Os anciãos Iris Burgoyne e Bunna Lawrie entregaram o objeto a Julian e pediram que ele ajudasse a dar visibilidade às causas e à cultura do povo. O episódio inspirou a criação da White Feather Foundation, organização dedicada a ações humanitárias e ambientais. A própria fundação registra a origem dessa história.
É uma imagem bonita, mas também carregada de ambiguidade. Julian passou a vida tentando entender o pai por meio de lembranças, gravações, relatos e símbolos. A pena não apaga o abandono, porém oferece uma forma de transformar dor em propósito.
As músicas de John sobre seus filhos são emocionantes porque não parecem vir de um homem completamente resolvido. Elas carregam ternura, culpa, idealização e tentativa de aproximação.
Julian inspirou desenhos, canções e uma das maiores composições de Paul McCartney. Sean recebeu a presença diária de John e uma música que se tornou um dos retratos mais conhecidos da paternidade na cultura pop. Entre os dois irmãos existe uma diferença de tratamento que não dá para fingir que não existiu.
O mais honesto é abandonar a imagem de Lennon como um gênio incapaz de errar e também evitar o julgamento simplista de que suas músicas eram falsas. John foi um artista contraditório. Conseguia escrever sobre amor, paz e família enquanto machucava pessoas próximas. A beleza das canções não cancela a responsabilidade do homem que as criou.
Talvez essa seja a maior força dessa história. O legado de John Lennon não está apenas nas melodias, mas nas perguntas que elas deixam. Uma música pode dizer “eu amo você”, mas a vida exige presença, cuidado e responsabilidade. Para Julian e Sean, essa diferença não era teoria. Era a própria infância.
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Para quem quiser conhecer essa história de forma mais rápida, com as principais músicas e curiosidades sobre John Lennon, Julian e Sean, o Cabra Geeki preparou um vídeo especial para o Instagram. A reprodução estará disponível logo abaixo desta matéria.
P: Lucy in the Sky with Diamonds foi realmente inspirada por Julian Lennon?
R: Sim. Julian levou para casa um desenho feito na escola e explicou que a imagem mostrava Lucy no céu com diamantes. John Lennon usou a frase como inspiração para a música dos Beatles.
P: Hey Jude foi escrita para o filho de John Lennon?
R: Paul McCartney escreveu a música pensando em Julian durante a separação de John e Cynthia Lennon. O título inicial era “Hey Jules”, mas Paul mudou o nome para “Jude”.
P: Por que Ringo Starr canta Good Night?
R: John Lennon escreveu a canção como uma espécie de canção de ninar para Julian, mas preferiu entregar os vocais a Ringo Starr. George Martin criou o acompanhamento orquestral da gravação.
P: Julian Lennon tocou em algum disco do pai?
R: Sim. Julian tocou bateria em “Ya Ya”, faixa de Walls and Bridges, lançado em 1974. O registro reúne John no piano e Julian na bateria.
P: John Lennon foi um pai presente para os dois filhos?
R: A relação foi diferente com cada filho. John se afastou bastante de Julian após o divórcio com Cynthia, enquanto passou cerca de cinco anos mais presente na criação de Sean. Mesmo assim, os dois filhos tiveram relações complexas com o legado do pai.
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