Artigo por
Ítalo Cunha
Banda iniciou a mixagem de oito músicas com vocais inéditos do cantor, mas ainda trata o lançamento com cautela

O Soundgarden deu um passo decisivo para encerrar sua história em estúdio. A banda começou a mixagem do último trabalho com vocais inéditos de Chris Cornell, usando gravações feitas antes da morte do cantor, em 2017. A atualização veio do baterista Matt Cameron, em entrevista ao podcast Let There Be Talk, e coloca o disco em uma fase bem mais concreta do que aquele eterno “estamos trabalhando nisso” que fã de rock já ouviu até cansar.
Segundo Cameron, o material reúne oito músicas com voz de Cornell. O grupo está trabalhando com Terry Date, produtor ligado a discos fundamentais do Soundgarden como Louder Than Love e Badmotorfinger, além de Joe Barresi. Ainda não existe data oficial de lançamento, mas Kim Thayil já vinha indicando em entrevistas recentes que a banda mira 2027 como janela provável.
As músicas não nasceram agora. Parte do material vem de demos trocadas entre os integrantes desde 2013 e 2014, além de sessões e ensaios realizados em 2015, 2016 e antes da última turnê de 2017. Cameron explicou que Cornell rearranjava ideias enviadas pelos colegas, colocava voz, mexia na estrutura e devolvia aquilo já com uma cara mais próxima de canção.
Agora, os membros remanescentes estão reconstruindo esse acervo. A ideia é combinar os vocais das demos de Cornell com partes instrumentais gravadas em ensaios, guitarras, baixo e bateria finalizados posteriormente. Não é um disco “novo” no sentido tradicional. Também não é apenas um compilado de sobra de estúdio jogado para fazer caixa.
Esse detalhe muda tudo. Quando uma banda termina material póstumo, existe sempre uma linha fina entre homenagem e exploração. No caso do Soundgarden, o processo parece mais cuidadoso porque os próprios integrantes que criaram aquelas músicas com Cornell estão tentando fechar as pontas. Ainda assim, a ausência dele transforma cada decisão em algo emocionalmente pesado. Kim Thayil já descreveu o trabalho como difícil e nada convencional.
O Soundgarden não foi só mais uma banda do grunge. Ao lado de Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains, o grupo ajudou a colocar Seattle no centro da música mundial, mas sempre com uma identidade mais torta, pesada e menos confortável. Tinha Black Sabbath, punk, psicodelia, afinação estranha e a voz absurda de Cornell costurando tudo como se aquilo fosse fácil.
A entrada da banda no Rock and Roll Hall of Fame em 2025 reforçou esse peso histórico. O reconhecimento veio tarde para muita gente, mas chegou em um momento simbólico: com o grupo revisitando seu próprio legado e tentando concluir o último capítulo com Cornell.
O mais interessante é que esse álbum não deve funcionar como “volta” do Soundgarden. Ele parece mais um encerramento. Uma despedida organizada, feita por quem sabe que não dá para substituir Chris Cornell como se a banda tivesse perdido apenas uma peça técnica. Ele era vocalista, guitarrista, compositor e uma das vozes mais reconhecíveis da história do rock moderno. Trocar isso por um nome famoso no microfone seria pedir para apanhar do próprio legado.
Discos póstumos costumam dividir público porque lidam com uma pergunta incômoda: o artista aprovaria isso? No caso de Cornell, essa pergunta fica ainda mais sensível, já que o material passou anos preso em disputas legais envolvendo a banda e o espólio do cantor. O acordo de 2023 abriu caminho para que as gravações fossem finalizadas, mas também aumentou a responsabilidade do projeto.
A boa notícia é que o Soundgarden não parece correr para lançar qualquer coisa. Matt Cameron afirmou que a banda quer terminar o projeto antes de decidir próximos passos. Nada de soltar single só para alimentar algoritmo. Nada de cravar data antes da mixagem ficar pronta. Em 2026, essa paciência já parece quase um ato de rebeldia, porque o mercado adora transformar memória afetiva em produto semanal.
Esse talvez seja o ponto mais forte da notícia. O álbum final do Soundgarden só faz sentido se soar como Soundgarden. Não precisa ser perfeito. Precisa parecer honesto. Precisa carregar a estranheza, o peso e aquela melancolia suja que a banda sabia fazer sem parecer pose.
Cameron também deixou a porta aberta para possíveis apresentações futuras, mas sem promessa. A banda já se reuniu em ocasiões especiais com vocalistas convidados, como Brandi Carlile e Shaina Shepherd, além de participações em tributos e eventos ligados ao legado de Cornell.
Só que tocar clássicos em homenagem é uma coisa. Apresentar músicas inéditas com outro vocalista é outra conversa. O público pode até aceitar, desde que o gesto seja tratado como celebração, não substituição. Se o Soundgarden decidir levar esse material ao palco, vai precisar encontrar um formato que respeite a ausência de Cornell sem congelar a banda em um altar.
No fim, a melhor decisão até agora parece ser a mais simples: terminar o disco primeiro. Depois, pensar no resto.
A notícia da mixagem empolga porque faz o disco deixar de ser uma possibilidade distante. Mas também pede cuidado do público. Não estamos falando de um novo álbum comum, com turnê, ciclo promocional e banda em plena atividade criativa. Estamos falando do fechamento de uma obra interrompida pela morte de um artista central.
Se vier em 2027, esse trabalho deve carregar uma carga emocional enorme para quem cresceu ouvindo Black Hole Sun, Fell on Black Days, Rusty Cage, Spoonman e tantos outros sons que pareciam sair de uma fábrica de concreto abandonada com alma própria. Bonito e esquisito ao mesmo tempo. Bem Soundgarden.
O rock vive de mitos, mas também vive de arquivos, fitas, demos e gente teimosa tentando terminar aquilo que ficou suspenso. Se o Soundgarden conseguir entregar um álbum que honre Cornell sem transformar sua voz em peça de museu, esse pode ser um dos lançamentos mais importantes do rock nos próximos anos. Não por nostalgia barata. Por encerramento digno.
FAQ
Soundgarden vai lançar álbum novo com Chris Cornell?
Sim. A banda está finalizando um último álbum com vocais inéditos gravados por Chris Cornell antes de sua morte, em 2017.
Quantas músicas terá o último álbum do Soundgarden?
Matt Cameron falou em oito músicas com vocais de Chris Cornell. Kim Thayil já indicou que o número pode ficar entre oito e nove faixas, mas a lista final ainda não foi anunciada.
Quando sai o novo álbum do Soundgarden?
Ainda não há data oficial. Kim Thayil já citou 2027 como uma previsão provável, enquanto Matt Cameron reforça que a banda quer terminar a mixagem antes de definir o lançamento.
Chris Cornell gravou essas músicas antes de morrer?
Sim. As faixas usam vocais de demos e materiais trabalhados com a banda antes da última turnê de 2017.
O Soundgarden vai fazer shows com outro vocalista?
Nada foi confirmado. A banda já fez apresentações especiais com convidados, mas qualquer show ligado ao novo álbum ainda depende de decisão futura dos integrantes.
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