Mestres do Universo abriu abaixo do esperado, mesmo com boa reação do público. Entenda a bilheteria, o orçamento e o risco para He-Man no cinema

Mestres do Universo estreia fraco justamente quando parecia ter tudo para virar uma nova aposta grande da Mattel no cinema. O filme do He-Man abriu com US$ 29,3 milhões nos Estados Unidos e Canadá, somou mais US$ 25 milhões no mercado internacional e chegou a US$ 54,3 milhões no mundo em seu primeiro fim de semana, segundo Box Office Mojo e The Numbers. Para qualquer lançamento médio, seria um número razoável. Para um blockbuster de fantasia com orçamento estimado em US$ 170 milhões, é sinal amarelo piscando forte em Castelo de Grayskull.
O dado mais duro vem da comparação entre bilheteria e custo. The Numbers lista o orçamento de produção em US$ 170 milhões e mostra que a arrecadação mundial inicial representa cerca de 0,3 vez esse valor. E isso ainda não considera marketing, distribuição e a fatia dos cinemas. Em outras palavras: o filme ainda precisa caminhar bastante para começar a parecer seguro financeiramente.
Nos EUA e Canadá, Mestres do Universo ficou em segundo lugar no fim de semana, atrás de Todo Mundo em Pânico, que abriu com US$ 55 milhões domésticos e US$ 105,5 milhões globais, segundo a AP. A comparação é cruel porque uma comédia de paródia, gênero que muita gente dava como morto no cinema, superou com folga um projeto caro de fantasia, brinquedo e nostalgia.
A abertura de He-Man também ficou dentro das projeções mais pessimistas. Antes da estreia, veículos como GamesRadar já apontavam rastreamentos entre US$ 27 milhões e US$ 35 milhões no mercado doméstico. O filme não desabou abaixo disso, mas também não surpreendeu para cima. Ele fez exatamente o tipo de número que deixa executivo calculando margem, janela digital e plano de dano no PowerPoint.
O curioso é que Mestres do Universo não está sendo tratado como desastre de qualidade. No Rotten Tomatoes, até a apuração desta matéria em 7 de junho de 2026, o filme aparecia com 67% de aprovação da crítica, 188 reviews contabilizadas, e 88% de aprovação do público verificado, com mais de 2.500 avaliações. O consenso do site diz que o longa encontra humanidade no He-Man com ajuda de um roteiro autoconsciente e de um elenco animado.
Isso cria uma situação interessante. O filme não parece estar sendo rejeitado por quem viu. Pelo contrário, o público inicial gostou bastante. O problema é que pouca gente foi ver, pelo menos em relação ao investimento. Bilheteria não mede só satisfação, mede alcance. E He-Man, por enquanto, parece ter falado bem com a base que comprou ingresso, mas não conseguiu transformar curiosidade geral em evento.
Esse é um ponto que Hollywood às vezes confunde. Nostalgia não é cheque em branco. Ter nome reconhecível não significa ter massa de público ativa. Todo mundo sabe quem é He-Man, mas saber quem é não significa sair de casa, pagar estacionamento, comprar pipoca e sentar por 2h20 em uma sala de cinema.
Depois de Barbie fazer US$ 1,44 bilhão mundialmente em 2023, a Mattel passou a ser vista como uma potencial fábrica de franquias cinematográficas baseadas em brinquedos. Só que Barbie e He-Man são casos muito diferentes. Barbie virou fenômeno porque tinha uma leitura pop ampla, conversa com várias gerações, discussão de gênero, moda, humor, música e uma campanha cultural que dominou o planeta.
He-Man tem força, mas em outro formato. A marca conversa muito com homens que cresceram nos anos 80 e 90, fãs de fantasia heroica, colecionadores, gente que viu Filmation, leu HQ, comprou boneco ou assistiu à versão de 1987 com carinho meio irônico. É um público apaixonado, mas mais específico.
O erro possível da campanha foi tratar reconhecimento como desejo. A pessoa olha He-Man e pensa “lembro disso”. Mas a pergunta comercial é outra: “quero ver isso agora no cinema?”. Mestres do Universo precisava convencer quem não tem vínculo forte com Eternia. A abertura sugere que essa ponte ainda não foi construída.
A crítica e o público parecem apontar para uma qualidade real: o filme entende que He-Man precisa ser colorido, estranho e um pouco ridículo. Travis Knight, diretor de Bumblebee e Kubo e as Cordas Mágicas, era uma escolha promissora justamente por conseguir lidar com fantasia e emoção sem desprezar o material de origem.
Só que a franquia carrega um desafio difícil. Se o filme fica sério demais, trai a extravagância do desenho. Se fica piada demais, parece que não acredita no próprio mundo. O Rotten Tomatoes mostra reviews bem diferentes: há quem elogie o filme como uma aventura vibrante e assumidamente absurda, e há quem critique o excesso de efeitos, humor e fantasia digital.
He-Man é um personagem que exige convicção. Ele usa espada, grita poder, enfrenta um vilão caveira chamado Esqueleto e tem um universo onde nomes como Mentor, Teela, Evil-Lyn e Grayskull precisam soar naturais. Se o filme pisca para a plateia toda hora dizendo “eu sei que isso é bobo”, ele enfraquece. Mas se finge que é Shakespeare com peitoral de academia, também perde. A linha é fininha, meu amigo.
A maior ameaça de Mestres do Universo talvez não seja Esqueleto, e sim o orçamento. Um filme de US$ 170 milhões precisa de bilheteria grande para justificar sequência, derivado e universo compartilhado. Se tivesse custado US$ 80 milhões ou US$ 100 milhões, essa abertura seria preocupante, mas administrável. Com o valor atual, o buraco é mais fundo.
The Numbers mostra US$ 54,3 milhões mundiais na largada. Para chegar perto de um cenário confortável, o filme precisaria de boas pernas nas próximas semanas, queda pequena no segundo fim de semana e desempenho internacional acima do padrão inicial. O problema é que o calendário de junho não está exatamente vazio. Dia D, de Steven Spielberg, vem aí, Todo Mundo em Pânico abriu forte, e o verão americano segue com concorrentes grandes.
Também existe a chance de uma segunda vida no streaming, já que a Amazon MGM naturalmente tem o Prime Video como destino futuro. Mas streaming não apaga automaticamente bilheteria fraca. Pode ajudar a marca, gerar conversa e manter planos vivos, mas sequência cinematográfica cara depende de dinheiro entrando de forma mais direta.
Um detalhe positivo aparece nos dados de recepção. The Numbers citou CinemaScore A- e PostTrak com 89% de espectadores avaliando o filme nas duas melhores caixas. Relatos de PostTrak repercutidos em comunidades de bilheteria também apontaram resposta forte de crianças. Isso importa porque filme familiar pode ter pernas melhores do que abertura sugere, especialmente se pais e filhos continuarem indo nas próximas semanas.
Só que Mestres do Universo não é exatamente uma animação infantil fácil de vender. É PG-13 nos EUA, tem 2h20 de duração, visual de fantasia pesada e um herói que talvez os pais conheçam mais do que os filhos. Para a garotada, He-Man compete com Mario, Minecraft, Sonic, Roblox, animes, YouTube e uma pilha de personagens muito mais vivos no consumo diário.
A Mattel precisa desse público novo. Sem criança, He-Man vira só uma franquia de nostalgia para adulto colecionador. E adulto colecionador compra boneco caro, sim, mas nem sempre sustenta blockbuster.
Ainda é cedo para decretar morte da franquia. A estreia foi fraca para o orçamento, mas a recepção do público indica que há algo ali. Se o filme cair pouco, performar bem fora dos EUA e virar assunto positivo no streaming, a Amazon MGM e a Mattel podem repensar a estratégia em vez de simplesmente engavetar tudo.
Mas uma continuação nos mesmos moldes parece difícil se a bilheteria não reagir. O caminho mais sensato talvez seja reduzir escala, focar em personagens, assumir mais a aventura pulp e não tentar transformar He-Man em “Senhor dos Anéis com brinquedo”. Eternia não precisa parecer uma franquia genérica de fantasia cara. Ela precisa parecer Eternia.
A Mattel também precisa tirar uma lição do contraste com Barbie. Nem todo brinquedo vira fenômeno cultural pelo mesmo caminho. Barbie venceu porque teve visão autoral, campanha inteligente e leitura contemporânea. He-Man precisa encontrar seu próprio motivo de existir em 2026. Só nostalgia de espada levantada não basta.
Mestres do Universo não abriu como catástrofe absoluta, mas abriu pequeno demais para o tamanho da ambição. O filme tem crítica razoável, público animado e um diretor que parece ter respeitado o espírito maluco da franquia. Ainda assim, a bilheteria inicial mostra que He-Man não é automaticamente um evento cinematográfico.
A verdade é um pouco amarga: a Mattel pode ter um filme melhor do que muita gente esperava, mas um negócio pior do que precisava. E Hollywood costuma ser menos sentimental que fã de boneco. Se a bilheteria não reagir, o poder de Grayskull pode acabar indo primeiro para o streaming, depois para reuniões internas e, quem sabe, para uma próxima tentativa com orçamento mais esperto.
He-Man ainda tem força. O problema é provar que essa força vale ingresso de cinema em escala global. Por enquanto, o público que foi parece ter gostado. A batalha agora é convencer o resto de Eternia a aparecer.
P: Quanto Mestres do Universo fez na estreia?
R: O filme abriu com US$ 29,3 milhões nos Estados Unidos e Canadá, US$ 25 milhões no exterior e US$ 54,3 milhões no mundo, segundo Box Office Mojo e The Numbers.
P: Mestres do Universo foi um fracasso de bilheteria?
R: Ainda é cedo para chamar oficialmente de fracasso final, mas a abertura é fraca para um filme com orçamento estimado em US$ 170 milhões. Ele precisa de boas semanas seguintes para reduzir o risco financeiro.
P: Qual é a nota de Mestres do Universo no Rotten Tomatoes?
R: Até 7 de junho de 2026, o filme tinha 67% de aprovação da crítica e 88% do público verificado no Rotten Tomatoes.
P: Quem está no elenco de Mestres do Universo?
R: Nicholas Galitzine interpreta Príncipe Adam e He-Man, Jared Leto vive Esqueleto, Camila Mendes interpreta Teela, Idris Elba vive Duncan/Man-At-Arms, Alison Brie é Evil-Lyn e Morena Baccarin aparece como a Feiticeira.
P: Mestres do Universo pode ganhar sequência?
R: Pode, mas a bilheteria inicial dificulta o caminho. Uma continuação dependerá do desempenho nas próximas semanas, da arrecadação internacional e da força do filme no streaming depois da janela de cinema.
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