MAVEN NASA encerrou sua missão após 11 anos em Marte, mas seus dados ainda explicam como o planeta perdeu atmosfera, água e chance de vida

Marte ficou um pouco mais silencioso. A MAVEN NASA, sonda que passou mais de 11 anos estudando a atmosfera marciana, foi oficialmente dada como perdida pela agência espacial nesta quarta-feira, 3 de junho de 2026. Ela parou de responder em dezembro de 2025, depois de passar atrás do Planeta Vermelho, e agora a NASA concluiu que não há como recuperar a missão. É o fim de uma nave, mas não o fim da ciência que ela deixou para trás.
A MAVEN, sigla para Mars Atmosphere and Volatile EvolutioN, foi lançada em 18 de novembro de 2013 e entrou na órbita de Marte em 21 de setembro de 2014. A missão principal deveria durar apenas um ano terrestre. Na prática, ela trabalhou por mais de uma década além do planejado, acompanhando a atmosfera superior, a ionosfera e a interação do planeta com o Sol.
A pergunta central era enorme: como Marte perdeu boa parte de sua atmosfera ao longo do tempo? Hoje, o planeta é frio, seco e tem uma atmosfera fina demais para manter água líquida estável na superfície. Mas evidências geológicas indicam que, bilhões de anos atrás, Marte teve rios, lagos e condições bem mais amigáveis.
A MAVEN ajudou a mostrar que o vento solar e a radiação tiveram papel decisivo nesse processo. Como Marte perdeu seu campo magnético global, ficou muito mais vulnerável ao bombardeio de partículas solares. Aos poucos, moléculas da atmosfera foram sendo arrancadas para o espaço. É como se o Sol tivesse passado bilhões de anos lixando o planeta, camada por camada.
Segundo a NASA, a última comunicação completa com a sonda aconteceu em 6 de dezembro de 2025. Antes de passar atrás de Marte, todos os subsistemas funcionavam normalmente. Depois disso, a Deep Space Network, rede de antenas usada para comunicação com missões distantes, não detectou mais sinal.
Uma análise de sinais de rádio indicou que a MAVEN entrou em modo de segurança e começou a girar em velocidade incomum ao emergir de trás do planeta. A conclusão preliminar é que essa rotação drenou as baterias, deixando o sistema de comunicação sem energia e colocando a nave em estado irrecuperável.
A NASA criou uma comissão de análise em fevereiro de 2026 para avaliar as tentativas de recuperação. O grupo concluiu que a sonda não tem mais condições de cumprir sua missão científica nem atuar como retransmissora de dados. A causa inicial da anomalia ainda está sendo investigada, e um relatório final deve sair mais adiante.
A MAVEN não era uma sonda “turística” de Marte. Ela não estava lá para tirar só imagens bonitas, embora tenha contribuído com registros incríveis em ultravioleta. Sua função era entender o planeta como um sistema vivo em escala planetária, mesmo que Marte não seja vivo. Atmosfera, Sol, tempestades de poeira, perda de água, auroras e clima espacial entravam na mesma conversa.
Um dos primeiros resultados fortes da missão mostrou que a erosão da atmosfera marciana aumenta bastante durante tempestades solares. Isso ajudou a explicar por que Marte, que talvez tenha sido mais quente e úmido no passado, virou o mundo árido que conhecemos.
Outro avanço veio com o estudo do argônio. A MAVEN ajudou a medir quanto desse gás foi perdido para o espaço e, a partir disso, os cientistas estimaram a perda de outros gases, incluindo dióxido de carbono, peça central para o antigo efeito estufa marciano. É uma investigação meio detetive: você mede o vestígio que sobrou para entender o crime cósmico que aconteceu bilhões de anos antes.
A missão também descobriu diferentes tipos de auroras em Marte. Na Terra, auroras costumam aparecer perto dos polos por causa do campo magnético global. Em Marte, a história é outra. Como o planeta tem campos magnéticos locais espalhados pela crosta, as auroras podem aparecer de formas bem diferentes, inclusive em regiões amplas.
Durante a tempestade global de poeira de 2018, aquela que ajudou a encerrar a missão do rover Opportunity, a MAVEN estudou como a poeira aqueceu a atmosfera superior e empurrou moléculas de água para altitudes maiores. Lá em cima, essa água fica mais vulnerável à quebra por radiação solar, permitindo que hidrogênio escape para o espaço. Em português claro: tempestades de poeira podem acelerar a perda de água marciana.
Mais recentemente, a sonda também participou da observação do cometa interestelar 3I/ATLAS em Marte. Mesmo perto do fim, a MAVEN ainda encontrou uma forma de olhar para além do próprio planeta que estudava. Missão boa é assim, quando você acha que ela já entregou tudo, ainda vem com uma última carta na manga.
A MAVEN não servia apenas à ciência atmosférica. Ela fazia parte da Mars Relay Network, a rede de sondas que ajuda a retransmitir dados de rovers como Curiosity e Perseverance para a Terra. A NASA informa que a MAVEN também marcou recorde no Sistema Solar por maior volume de dados retransmitidos de outro planeta em um único dia.
Com a perda da sonda, a rede fica menor, mas não apagada. Segundo a Associated Press, quatro outras espaçonaves em torno de Marte, duas americanas e duas europeias, devem absorver essa função, sem perda de ciência para os rovers de superfície. Ainda assim, perder um relay em Marte é como perder um roteador velho, porém confiável, em uma casa cheia de dispositivos importantes. Dá para reorganizar, mas faz falta.
A parte mais prática da MAVEN talvez seja justamente a menos “cinematográfica”. Seus dados ajudam a entender o ambiente de radiação em Marte e o efeito do clima espacial sobre o planeta. Isso importa muito para uma futura missão tripulada.
Enviar humanos para Marte não é só pousar, plantar bandeira e fazer pose para documentário. Astronautas precisariam enfrentar radiação, poeira, frio, comunicação atrasada, baixa gravidade e uma atmosfera que não oferece proteção parecida com a da Terra. Quanto mais a NASA entende como o Sol afeta Marte, melhor consegue planejar blindagem, habitats, rotas e protocolos de segurança.
A própria NASA afirmou que a ciência da MAVEN ajuda a definir que tipo de proteção contra radiação será necessária antes de enviar humanos ao planeta. Isso transforma a missão em algo maior que uma pesquisa sobre o passado. Ela também ajudou a desenhar o futuro da exploração marciana.
Sondas espaciais não morrem de forma dramática como em filme. Não tem música triste, sacrifício heroico e último recado para a humanidade. Às vezes, elas simplesmente param de responder. E esse silêncio dói porque existe uma equipe inteira por trás, gente que passou anos cuidando daquela máquina como quem acompanha um parente distante.
A MAVEN cumpriu muito mais do que prometeu. Entregou mais de 800 publicações científicas, ajudou rovers na superfície, estudou auroras, poeira, vento solar, água escapando, atmosfera se perdendo e até um cometa interestelar. A missão acabou, mas seus dados serão arquivados e usados por décadas.
Marte ainda guarda muita coisa que a gente não entende. A MAVEN não respondeu todas as perguntas, mas ajudou a formular as melhores. E, no fim das contas, isso talvez seja o papel mais bonito de uma missão científica: não fechar o mistério, mas deixar a próxima geração com pistas melhores para continuar caçando respostas.
P: O que era a sonda MAVEN da NASA?
R: A MAVEN era uma sonda orbital da NASA dedicada a estudar a atmosfera superior de Marte, sua ionosfera e a interação do planeta com o Sol. Ela ajudou a entender como Marte perdeu boa parte de sua atmosfera ao longo de bilhões de anos.
P: Quando a NASA perdeu contato com a MAVEN?
R: A última comunicação completa aconteceu em 6 de dezembro de 2025. A sonda parou de responder depois de passar atrás de Marte, em uma manobra normal de sua órbita.
P: Por que a MAVEN não pode ser recuperada?
R: A análise da NASA indica que a sonda entrou em modo de segurança e começou a girar rapidamente, drenando suas baterias. Sem energia suficiente para comunicação e controle, a missão foi considerada irrecuperável.
P: A perda da MAVEN prejudica os rovers em Marte?
R: A MAVEN ajudava a retransmitir dados de rovers como Curiosity e Perseverance, mas outras sondas em órbita de Marte devem assumir essa função. Segundo a NASA e a AP, não deve haver perda de ciência dos rovers por causa disso.
P: Qual foi a maior descoberta da MAVEN?
R: Uma das descobertas centrais foi confirmar o papel do vento solar e da radiação na perda da atmosfera marciana. A missão mostrou como esse processo ajudou a transformar Marte de um planeta potencialmente habitável em um mundo frio e seco.
P: A MAVEN ainda está orbitando Marte?
R: Sim, segundo a AP, a expectativa é que a sonda permaneça em órbita por mais 50 a 100 anos antes de cair no planeta. Ela não representa risco imediato para outras espaçonaves.
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