Artigo por
Ítalo Cunha
Arquivos de OVNIs dos EUA revelam vídeos, relatos militares e documentos históricos, mas o ponto mais forte não é alienígena confirmado

Os arquivos de OVNIs dos EUA ganharam uma nova onda de atenção em maio de 2026, principalmente depois que o governo americano lançou o portal PURSUE no site oficial do Departamento de Guerra. E aqui já começa a primeira verdade incômoda: não, os documentos não confirmam alienígenas. Mas também não são só “balela velha de maluco olhando luz no céu”. O material mais interessante mostra outra coisa, talvez até mais útil: o governo americano passou décadas acumulando relatos, vídeos, fotos, áudios e análises sobre objetos não identificados, muitas vezes perto de bases militares, áreas sensíveis, operações aéreas e locais ligados a tecnologia nuclear.

Nos Estados Unidos, o termo oficial mais usado hoje é UAP, sigla para Unidentified Anomalous Phenomena. Em português, muita gente traduz como Fenômenos Anômalos Não Identificados, ou FANI. A palavra OVNI continua popular, mas ela carrega aquela imagem de disco voador, ET cinza e música de Arquivo X tocando na cabeça. Já UAP tenta ser mais frio: algo foi observado, registrado ou relatado, mas ainda não foi identificado com segurança.
Essa mudança de nome não é frescura burocrática. Ela ajuda a tirar o debate do campo “você acredita em alienígenas?” e colocar em outro: “o que apareceu no sensor, no radar, na câmera, no relato do piloto ou no arquivo histórico?”. Isso muda tudo. O assunto deixa de ser só folclore geek e vira também segurança aérea, inteligência militar, qualidade de dados e transparência pública.
Em 8 de maio de 2026, o Departamento de Guerra dos EUA anunciou o primeiro pacote do PURSUE, sigla para Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters. Em 22 de maio de 2026, veio a segunda leva. O próprio portal informa que novos materiais serão publicados aos poucos, porque a revisão envolve dezenas de agências e milhões de registros, muitos ainda em papel. Traduzindo: isso aqui não acabou.
A frase que deveria estar no topo de qualquer matéria séria sobre o tema é esta: “não identificado” não significa “alienígena”. O próprio portal PURSUE afirma que os materiais ali são casos não resolvidos, ou seja, o governo não consegue determinar com segurança a natureza do fenômeno observado. Isso pode acontecer por falta de dados, baixa qualidade do registro, sensores limitados, ausência de contexto ou relatório incompleto.
Essa diferença é essencial. Um vídeo borrado de sensor infravermelho pode ser um drone, balão, ave, aeronave distante, reflexo térmico, erro de compressão, objeto comum visto em ângulo ruim ou, sim, algo ainda sem explicação. Mas sem dados de altitude, distância, velocidade, vento, telemetria e múltiplos sensores, a análise fica capenga.
A AARO, o escritório do Pentágono criado para lidar com esse tipo de caso, é bem clara em seus relatórios: até agora, não encontrou evidência verificável de tecnologia extraterrestre, seres alienígenas ou programas secretos de engenharia reversa de naves de outro mundo. Isso pode frustrar quem esperava a cena do presidente abrindo um galpão cheio de disco voador, mas fortalece a parte mais séria da discussão: o problema real é entender o que invade ou aparece perto de áreas sensíveis, mesmo quando a resposta é humana, tecnológica ou atmosférica.
O item mais curioso da segunda leva do PURSUE é o arquivo sobre Sandia Base, no Novo México, entre 1948 e 1950. São 116 páginas ligadas ao Armed Forces Special Weapons Program, sucessor direto do Projeto Manhattan no pós-guerra, e à Força Aérea dos EUA. O documento reúne 209 relatos de “orbes verdes”, “discos” e “bolas de fogo” perto de uma base militar ligada a armas nucleares.
Esse é o tipo de arquivo que merece atenção, mas não histeria. Ele é fascinante porque junta três elementos poderosos: início da Guerra Fria, tecnologia nuclear e fenômenos aéreos incomuns. O período era marcado por medo de espionagem soviética, testes militares, novas aeronaves, balões, foguetes, pesquisas atmosféricas e uma população já alimentada por relatos de “discos voadores”.
O detalhe do Sandia fica ainda melhor porque os documentos mencionam investigações contemporâneas sobre resíduos de pó de cobre encontrados em algumas áreas associadas aos relatos. Isso não prova nave alienígena, calma lá, meu abençoado. Mas prova que militares e cientistas levaram certos episódios a sério o bastante para coletar material, compilar observações e tentar entender se havia algo físico por trás de parte das ocorrências.
O mais interessante é o padrão histórico: quando o fenômeno aparece perto de base sensível, o governo se mexe. Não necessariamente porque acha que é ET, mas porque pode ser tecnologia inimiga, falha de vigilância, teste próprio mal comunicado ou risco à segurança.
A nova leva também trouxe vídeos militares de regiões como Oriente Médio, Irã, Síria, Golfo de Omã, Yellow Sea, sudeste dos EUA e outros locais. Muitos aparecem com títulos chamativos, como formação de quatro UAPs, objetos esféricos, formatos tipo “tic-tac”, luzes em sensor infravermelho e até registros descritos como objetos entrando e saindo da água.
Aqui mora uma pegadinha. O título de um arquivo pode soar cinematográfico, mas o material técnico nem sempre sustenta uma conclusão forte. Em alguns casos, o próprio AARO informa que o registro veio de sensor infravermelho ou câmera de plataforma militar, mas que faltam dados para concluir distância, altitude, velocidade ou natureza do objeto. Em outros, a imagem foi alterada digitalmente antes de chegar ao arquivo analisado, o que reduz a força probatória.
Isso não torna os vídeos inúteis. Pelo contrário. Eles mostram como é difícil interpretar imagem militar sem metadados completos. Um ponto branco em infravermelho pode parecer uma nave fazendo manobra impossível, mas sem saber alcance, lente, movimento da câmera, vento, compressão e posição da plataforma, a internet inteira vira engenheira aeroespacial de botequim.
O que realmente importa nesses vídeos é a necessidade de coleta padronizada. A NASA bateu nessa tecla em seu relatório independente de 2023: o estudo de UAP precisa de dados melhores, instrumentos calibrados, metodologia clara e menos estigma. O governo americano parece ter aprendido, pelo menos em parte, que câmera ruim e relato solto não resolvem mistério.
A página oficial de imagens e casos da AARO talvez seja mais educativa do que a leva mais recente do PURSUE. Ela mostra vários exemplos de como fenômenos aparentemente impressionantes acabam tendo explicações comuns.
O caso de Al Taqaddum, no Iraque, parecia um objeto estranho flutuando por mais de 17 minutos em vídeo infravermelho. A AARO concluiu com alta confiança que era um conjunto de balões total ou parcialmente inflados. O caso do Monte Etna parecia mostrar um objeto cruzando uma pluma superquente de gás e cinzas durante uma erupção. A análise concluiu que efeitos ópticos e condições atmosféricas distorceram a percepção, e o objeto provavelmente era um balão a cerca de 170 quilômetros do vulcão.
O caso de Porto Rico, famoso por parecer mostrar um objeto entrando e saindo da água e se dividindo em dois, também perdeu parte do “efeito uau” com análise técnica. Segundo a AARO, uma reconstrução feita por parceiro da comunidade de inteligência indicou que eram dois objetos viajando próximos, em linha reta, à velocidade do vento, sem entrar na água.
Isso é muito importante. Se casos famosos podem parecer absurdos antes da análise e comuns depois dela, então a prudência não é chatice. É método. Quem pula direto para “alienígenas” está fazendo o roteiro de Hollywood antes da perícia.
O relatório anual de 2024 da AARO e da ODNI é uma das peças mais relevantes para entender a escala do assunto. O escritório recebeu 757 relatos no período de 1º de maio de 2023 a 1º de junho de 2024. Desses, 485 eram incidentes ocorridos dentro do período analisado, e 272 eram relatos anteriores que ainda não tinham entrado nos relatórios.
O total de casos sob revisão da AARO passou de 1.600 até junho de 2024. Parte foi resolvida como objetos prosaicos, como balões, aves, aeronaves, drones e satélites. O dado mais interessante é que 21 casos foram destacados para análise adicional com parceiros de inteligência e ciência, por apresentarem características ou comportamentos relatados como anômalos.
Esse número é pequeno perto do total, mas não deve ser ignorado. A leitura honesta é: a maioria tende a explicações comuns, uma parte fica sem solução por falta de dados e uma fração menor merece investigação mais pesada. Isso é muito diferente de “o governo confirmou ET”, mas também é diferente de “não tem nada para ver aqui”.
O relatório histórico da AARO, Volume I, publicado em 2024, é duro com as teorias mais populares. Depois de revisar investigações desde 1945, arquivos classificados e não classificados, programas antigos e cerca de 30 entrevistas, a AARO afirmou não ter encontrado evidência de que qualquer investigação oficial tenha confirmado tecnologia extraterrestre.
O documento também trata de alegações famosas. Ele diz que não encontrou provas de NDAs reais ameaçando pessoas de morte por revelarem segredos de UAP. Afirma que o suposto documento de inteligência de 1961 sobre UFOs extraterrestres não é autêntico. Declara que empresas citadas por entrevistados negaram ter recuperado ou feito engenharia reversa de tecnologia alienígena. E conclui que uma amostra metálica atribuída a uma suposta nave de outro mundo era uma liga terrestre fabricada, composta principalmente por magnésio, zinco e bismuto.
O trecho sobre KONA BLUE é especialmente curioso. Segundo a AARO, KONA BLUE foi uma proposta de programa de acesso especial ligada à recuperação e engenharia reversa de UAP, apoiada por pessoas que acreditavam que o governo escondia tecnologia extraterrestre. Só que o programa nunca foi aprovado pelo Departamento de Segurança Interna e seus defensores não apresentaram evidência empírica.
Esse ponto é bom demais para passar batido. Às vezes, a existência de um nome secreto não significa existência de nave secreta. Pode significar uma proposta burocrática baseada em crenças, suspeitas e relatos indiretos. É menos divertido que um hangar em Nevada, mas muito mais plausível.
Além do PURSUE, o National Archives dos EUA mantém uma página de downloads em massa com registros relacionados a UAP. Ali estão séries gigantescas de documentos, imagens, vídeos e metadados, incluindo Project Blue Book, arquivos de Roswell, registros da FAA, Nuclear Regulatory Commission, ODNI, Office of the Secretary of Defense, filmes, fotos e materiais de bibliotecas presidenciais.
O próprio National Archives informa que esses pacotes serão atualizados ao menos três vezes por ano. Também avisa que nem tudo está disponível online por questões de direitos autorais ou propriedade intelectual. Isso dá um tom menos conspiratório e mais arquivístico ao assunto: há muito material público, mas ele exige trabalho, leitura e cruzamento de dados.
Para quem gosta de investigação séria, esse é o ouro real. Não é um vídeo de 20 segundos no X com legenda em caps lock. É uma base documental enorme para entender como o governo americano registrou, classificou, ignorou, investigou, confundiu e reabriu casos por décadas.
O que os arquivos mostram de mais relevante até 23 de maio de 2026 é uma tensão entre três coisas: curiosidade pública, segurança nacional e dados ruins. O público quer resposta. O governo libera arquivos. Os arquivos muitas vezes mostram que nem o governo tinha resposta boa, porque a coleta original foi fraca, fragmentada ou feita para outro objetivo.
Também existe política no meio, claro. O release do Departamento de Guerra usa linguagem forte de transparência, cita determinação presidencial, fala em bilhões de acessos ao portal e promete novas levas. Isso tem valor público, mas também tem marketing institucional. Não dá para esquecer que governo adora controlar narrativa, inclusive quando está prometendo abrir a caixa-preta.
A parte mais séria para o Cabra Geeki, olhando sem chapéu de alumínio e sem deboche barato, é esta: UAPs são interessantes porque revelam os limites da nossa capacidade de observar o céu. Em uma época de drones baratos, satélites, balões, guerra eletrônica, sensores militares, IA, falsificações digitais e disputa entre potências, não saber o que apareceu perto de uma base já é problema suficiente.
Alienígenas seriam a hipótese mais espetacular. Mas a hipótese mais útil, agora, é mais terrena: os governos precisam melhorar a coleta de dados, reduzir o estigma de pilotos e operadores que relatam algo estranho, cruzar sensores e publicar análises com mais clareza. Se um dia existir algo realmente extraordinário, só dados bons vão separar descoberta de fanfic.
Os arquivos de OVNIs dos EUA não entregam a nave-mãe. Entregam algo mais desconfortável: o mundo moderno, cheio de câmera e radar, ainda é péssimo em explicar certos registros quando eles nascem incompletos. E isso, para mim, é muito mais assustador do que um ET simpático pedindo para ligar para casa.
P: Os arquivos de OVNIs dos EUA confirmam alienígenas?
R: Não. Até 23 de maio de 2026, os relatórios oficiais da AARO, ODNI e NASA não apresentam confirmação de tecnologia extraterrestre, seres alienígenas ou engenharia reversa de naves de outro mundo.
P: O que é o portal PURSUE?
R: PURSUE é o sistema criado pelo governo americano para liberar arquivos de UAP, OVNIs e documentos históricos relacionados. O portal fica no site war.gov/ufo e recebeu a primeira leva em 8 de maio de 2026 e a segunda em 22 de maio de 2026.
P: Qual foi o arquivo mais curioso da nova leva?
R: Um dos mais interessantes é o material sobre Sandia Base, no Novo México, com 116 páginas e 209 relatos de “orbes verdes”, “discos” e “bolas de fogo” entre 1948 e 1950, perto de uma instalação ligada ao programa nuclear americano.
P: Por que muitos casos continuam sem solução?
R: Principalmente por falta de dados. Muitos vídeos não têm telemetria completa, distância confiável, altitude, velocidade, múltiplos sensores ou cadeia de custódia forte. Sem isso, a análise fica limitada.
P: O que a NASA diz sobre OVNIs ou UAPs?
R: A NASA defende uma abordagem científica, com dados melhores, instrumentos calibrados e menos estigma para relatos. O relatório independente de 2023 não confirmou origem extraterrestre, mas recomendou formas melhores de estudar o fenômeno.
P: Onde posso ver os documentos oficiais?
R: Os principais pontos são o portal PURSUE em war.gov/ufo, a página da AARO, o relatório anual da ODNI/AARO, a página da NASA sobre UAP e os downloads em massa do National Archives.
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