Por que o brasileiro adulto continua assistindo Tokusatsu
Artigo por
Ítalo Cunha
Entenda por que o brasileiro adulto continua assistindo tokusatsu em 2026, entre memória afetiva, séries novas, Super Sentai, Kamen Rider e o sonho de Jaspion

Tem gente que olha para um adulto vendo herói japonês de armadura, moto, nave e golpe com nome gritado e conclui rápido demais que tudo se resume à nostalgia. Eu acho essa leitura curta. O brasileiro adulto continua assistindo tokusatsu porque essas séries nunca foram só passatempo infantil. Elas eram ritual, imaginação, moralidade pop, exagero sincero e, para muita gente, uma primeira experiência real com fascínio audiovisual. Em 2026, isso segue vivo. E segue vivo não só na lembrança, mas no presente.

O primeiro erro é imaginar que crescer exige abandonar tudo o que marcou a infância. Não exige. O que muda é o jeito de olhar. Quando a criança vê Jaspion, Jiraiya, Kamen Rider Black ou Changeman, ela enxerga aventura, perigo e transformação. Quando esse mesmo fã volta adulto, ele enxerga outra camada. Passa a notar o peso da direção, o charme do efeito prático, a inventividade das maquetes, a coragem de trabalhar melodrama sem cinismo e, principalmente, a sinceridade. Tokusatsu bom acredita no que está contando. Isso, hoje, é mais raro do que deveria.
Boa parte do entretenimento atual morre de medo de parecer emotivo demais. Vive se protegendo com piada, ironia ou meta comentário. O tokusatsu, quando funciona, faz o contrário. Ele se joga. Leva a sério a dor do herói, a queda do mentor, a promessa feita para um amigo, o dever de proteger gente comum. Parece simples, mas não é. Adulto cansado de produto que posa de esperto encontra nisso um alívio quase físico. Existe algo muito poderoso em ver uma obra que não tem vergonha de ser coração aberto.
2026 mostra que o gênero não virou peça de museu
Se fosse apenas memória, talvez o apego já tivesse diminuído. Só que 2026 mostra o oposto. O gênero continua produzindo assunto, disputa, curiosidade e expectativa semanal. Na TV Asahi, Kamen Rider Zeztz segue no ar e chegou ao episódio 32 em 26 de abril de 2026. Na faixa seguinte, Super Space Sheriff Gavan Infinity estreou em 15 de fevereiro e já alcançou o episódio 11 também em 26 de abril. Antes disso, No.1 Sentai Gozyuger sustentou a tradição dos esquadrões até 8 de fevereiro. Fora da Toei, o universo Ultra também seguiu se movimentando, com Ultraman Omega atravessando o começo do ano e Ultraman Teo já oficializado para julho.

Isso importa porque desmonta a velha ideia de que o fã adulto vive só de reprisar manchete da Rede Manchete na cabeça. Não vive. Ele acompanha calendário, anúncio, estreia, mudança de faixa, teaser, dublagem, streaming e licenciamento. A relação ficou mais madura porque o gênero também amadureceu como ecossistema. Há catálogo clássico para revisitar, mas também há novidade para discutir no presente. Essa combinação é perigosa no melhor sentido. Ela prende.
E há um detalhe bem brasileiro nessa história. O tokusatsu por aqui nunca foi consumo frio. Ele sempre veio misturado com memória de locução de TV aberta, álbum de figurinha, fita VHS, brinquedo improvisado, abertura dublada, conversa no recreio e uma sensação muito particular de descoberta. Quando o adulto volta para essas séries, ele não está apenas revendo um programa. Está reencontrando um idioma afetivo. Só que, agora, com mais repertório para entender por que aquilo o marcou tanto.
A vida adulta muda o olhar, não apaga o vínculo
Tem outro ponto que quase ninguém comenta direito. O tokusatsu conversa muito bem com a vida adulta justamente porque fala de responsabilidade, trabalho, legado e sacrifício de forma frontal. Mesmo quando a superfície parece colorida e espalhafatosa, o centro dramático quase sempre gira em torno de peso real. Há heróis exaustos, mestres falhos, instituições quebradas, gente tentando continuar depois da perda. O espectador de 10 anos sente isso sem nomear. O de 30 ou 40 entende exatamente o que está vendo.

Também existe um prazer muito adulto em reconhecer artesanato. Quem volta para essas produções depois de anos percebe o quanto a limitação técnica muitas vezes gerava mais criatividade do que muito blockbuster milionário. A fantasia precisava de solução de cena. O monstro precisava existir fisicamente. A luta dependia de corpo, enquadramento e ritmo. É claro que há tosqueira. Sempre houve. Só que essa tosqueira, quando acompanhada de invenção, vira personalidade. E personalidade ainda é uma das moedas mais valiosas da cultura pop.
Por isso eu não compro a ideia de “culpa” que alguns ainda tentam colar no fã maduro. Adulto não continua vendo tokusatsu apesar da idade. Continua vendo porque a idade permitiu entender melhor o que estava ali.
A Sato Company e a Toei mudaram o peso dessa conversa na América Latina
A permanência desse público também tem uma razão prática. Durante muito tempo, ser fã de herói japonês na América Latina era viver entre lacuna, pirataria, rumor e promessa. Havia paixão de sobra, mas faltava continuidade oficial. A entrada mais forte da Sato Company nessa frente muda bastante esse cenário. Em novembro de 2021, a própria empresa informou que estava com os direitos de transmissão e licenciamento de séries da franquia Kamen Rider não só para o Brasil, mas para toda a América Latina. Na época, isso parecia grande. Hoje dá para dizer que era mesmo.
Só que 2025 e 2026 deram corpo real a esse movimento. Kamen Rider Zeztz passou a ter transmissão oficial pela Sato para Brasil e América Latina, com áudio original e legendas em português e espanhol via TokuSato. Em fevereiro de 2026, Gavan Infinity entrou na mesma rota regional. O simbolismo disso é enorme. Não estamos mais falando apenas de resgatar catálogo antigo para matar saudade. Estamos falando de acompanhar série nova, oficialmente, dentro do mesmo ciclo de conversa que movimenta o Japão.
Para o fã adulto, isso pesa demais. Porque ele não quer mais só lembrar do passado. Ele quer participar do agora sem pedir licença, sem depender sempre de atalho e sem ser tratado como nicho invisível. Quando Kamen Rider chega licenciado de forma oficial para toda a América Latina, o recado é claro: existe mercado, existe público e existe valor cultural aí. Muita gente pode achar isso detalhe burocrático. Não é. Licenciamento oficial também é uma forma de reconhecimento.
Gavan Infinity e o PROJECT R.E.D. mostram que a Toei ainda quer arriscar
A prova mais curiosa dessa vitalidade talvez seja justamente Gavan Infinity. O PROJECT R.E.D. nasceu como uma nova marca de tokusatsu da Toei, com proposta de trabalhar heróis vermelhos e cruzamentos de mundo, e escolheu como primeiro passo um novo Gavan. Isso por si só já diz bastante. A empresa poderia jogar seguro, repetir fórmula conhecida e apenas trocar capacete. Preferiu mexer num legado sensível para muitos fãs, reposicionando um nome clássico em outra chave.
Muita gente estranhou. É normal. Mexer em ícone sempre incomoda, ainda mais quando se troca até a cor central do herói e se coloca esse novo personagem no espaço que foi de Super Sentai por cinco décadas. Só que essa ousadia também ajuda a explicar por que o adulto segue acompanhando o gênero. Ele quer ver o que a indústria faz com a própria herança. Quer concordar, discordar, comparar, brigar, defender. Quer ter assunto. Franquia viva é a que ainda pode desagradar. Franquia morta é a que só sobrevive em moldura.
No caso de Gavan Infinity, há ainda um sabor especial para o Brasil. Metal Hero sempre teve aqui um peso que o Japão nem sempre espelhou da mesma forma. Ver um nome dessa linhagem voltar com tratamento de projeto fundador, ocupando espaço nobre e ainda circulando oficialmente pela América Latina via Sato, toca fundo no fã brasileiro adulto. Não porque seja igual ao passado, mas porque prova que aquele passado ainda reverbera na indústria.

E o filme do Jaspion, agora vai?
Aqui é preciso baixar a poeira e falar com honestidade. O filme brasileiro do Jaspion não é invenção de fã impaciente, mas também não é realidade garantida. O projeto existe há anos. Foi anunciado lá em 2018 com aval da Toei, sumiu do radar por longos períodos, reacendeu em 2025 e voltou a aparecer em materiais de mercado em 2026. Isso já o coloca num lugar diferente de rumor vazio. Há intenção, há trabalho de desenvolvimento e há movimentação comercial real.
Em maio de 2025, Nelson Sato afirmou publicamente que a ideia do longa seguia de pé, que o filme seria feito “a quatro mãos” e que a empresa queria manter o projeto para cinema. Em 2025, o nome do longa apareceu em material ligado ao mercado de Cannes. Em fevereiro de 2026, O Fantástico Jaspion voltou a circular no European Film Market, em Berlim, ainda em fase de captação, coprodução, distribuição e busca de parceiros. Ou seja, existe projeto, existe roteiro associado ao desenvolvimento e existe tentativa concreta de transformar isso em negócio internacional.
Então ele vai acontecer? Pode acontecer, e hoje parece menos improvável do que parecia há dois ou três anos. Mas ainda falta o que realmente separa desejo de obra filmada: dinheiro fechado, cronograma, elenco, confirmação de produção e início de filmagens. Enquanto isso não vier, o mais correto é tratar o longa como possibilidade robusta, não como promessa cumprida.
Ao mesmo tempo, o contexto atual talvez seja o melhor em muito tempo. A Sato está mais ativa no tokusatsu, a relação comercial com a Toei ganhou novo fôlego, Kamen Rider entrou num circuito oficial latino-americano mais visível, Gavan Infinity virou realidade e o mercado internacional já viu Jaspion reaparecer em vitrines de captação. Isso não garante nada. Mas melhora muito o clima para que algo ande de fato.
O adulto brasileiro segue porque o tokusatsu ainda oferece pertencimento
No fundo, eu acho que a resposta mais honesta para essa pergunta é simples. O brasileiro adulto continua assistindo tokusatsu porque esse tipo de série oferece uma mistura rara de memória, sinceridade, comunidade e renovação. Ela acolhe quem quer rever o que ama, mas também recompensa quem quer continuar acompanhando um gênero em transformação. Pouca coisa consegue ser tão confortante e tão viva ao mesmo tempo.
E talvez seja justamente por isso que a conversa sobre Kamen Rider oficial na América Latina, Gavan Infinity abrindo o PROJECT R.E.D. e o possível filme de Jaspion mexa tanto com esse público. Não é só fandom falando alto. É uma geração percebendo que aquilo que parecia enterrado na infância voltou a ter futuro. Crescer não matou o vínculo. Só deixou esse vínculo mais consciente.

FAQ
P: Quais séries tokusatsu estão em exibição em 2026?
R: Em 25 de abril de 2026, Kamen Rider Zeztz segue no ar na TV Asahi. Gavan Infinity também está em exibição desde 15 de fevereiro de 2026. No começo do ano, No.1 Sentai Gozyuger foi exibido até 8 de fevereiro, e Ultraman Teo já foi anunciado oficialmente para julho.
P: A Sato Company tem mesmo direitos de Kamen Rider para toda a América Latina?
R: Sim. Em comunicado divulgado em novembro de 2021, a empresa informou que tinha os direitos de transmissão e licenciamento da franquia para o Brasil e toda a América Latina. O peso prático disso ficou mais visível com a transmissão oficial de Kamen Rider Zeztz na região.
P: O que é o PROJECT R.E.D.?
R: É uma nova marca de produções tokusatsu da Toei anunciada para 2026. A proposta envolve heróis vermelhos e possibilidade de cruzamentos entre obras, e o primeiro título desse guarda-chuva é Gavan Infinity.
P: Gavan Infinity é continuação direta do Gavan clássico?
R: Não exatamente. A divulgação oficial trata a série como uma obra nova construída do zero, mas preservando a identidade visual e o espírito de ficção científica ligados ao Gavan original. É mais uma reinvenção do que uma continuação tradicional.
P: O filme do Jaspion já está confirmado?
R: Ainda não como produção pronta para filmar. O projeto existe, reapareceu em materiais de mercado em 2025 e 2026 e segue em fase de captação e busca de parceiros. Isso o torna real, mas ainda não definitivo.
P: Por que tantos adultos ainda acompanham tokusatsu?
R: Porque essas séries oferecem mais do que saudade. Elas entregam senso de comunidade, artesanato visual, emoção sem cinismo e um tipo de heroísmo direto que continua funcionando muito bem na vida adulta.



