Artigo por
Ítalo Cunha
A franquia virou a principal marca da Toei, domina Netflix, mangá, anime, card game e live-action, mas existe um risco real por trás dessa enxurrada

Toda semana aparece alguém dizendo que One Piece cansou. Que é anúncio demais, produto demais, versão demais, Netflix demais, boneco demais, carta demais, Luffy demais. Só que aí vêm os números oficiais e deixam a conversa bem menos simples. Em 2026, One Piece não parece uma franquia esgotada. Parece uma obra que virou ecossistema.
O ponto curioso é que as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. A história criada por Eiichiro Oda vive um dos momentos mais importantes de sua reta final, especialmente com Elbaf no mangá e no anime. Ao mesmo tempo, o mercado em volta da obra está empilhando live-action, remake, especial LEGO, card game, colecionável, evento, streaming, collab e tudo que couber na sacola do Chapéu de Palha.
Então a pergunta certa talvez não seja “One Piece cansou?”. A pergunta melhor é: o público cansou da história ou cansou de ser bombardeado por produto?

O dado mais forte vem do balanço fiscal da Toei Animation encerrado em março de 2026. Nos relatórios oficiais, One Piece aparece como líder nos três grandes recortes de franquia analisados pela empresa: licenciamento doméstico, filmes e distribuição internacional, além de licenciamento internacional.
Somando esses três blocos, One Piece gerou cerca de 27,84 bilhões de ienes para a Toei no ano fiscal, contra aproximadamente 20,8 bilhões de ienes de Dragon Ball. Em outras palavras: pela primeira vez nesse recorte recente, a obra de Oda deixou Dragon Ball para trás dentro da casa que também ajudou a transformar Goku em lenda mundial.
E isso não é pouca coisa. Dragon Ball sempre foi o monstro sagrado da Toei, aquele tipo de marca que vende game, action figure, camiseta, boneco, pacote de salgadinho e nostalgia sem nem suar. Quando One Piece passa esse titã em faturamento no estúdio, o recado é claro: a franquia deixou de ser apenas “um dos pilares” e virou o principal motor comercial da empresa.
Só que aqui entra uma correção honesta. No caso da Bandai Namco, One Piece não passou Gundam no recorte de brinquedos e hobby no Japão. Os dados oficiais mostram Gundam com 106,3 bilhões de ienes em Toys and Hobby Japan no ano fiscal de 2026, enquanto One Piece aparece com 95,1 bilhões de ienes. Ainda é um desempenho absurdo, mas Gundam continua sendo aquela fábrica de plástico sagrada que ninguém derruba fácil, né meu amigo?
No grupo total da Bandai Namco, a leitura também é forte: Gundam liderou com 254,3 bilhões de ienes, enquanto One Piece fez 139,3 bilhões, praticamente colado em Dragon Ball, que ficou com 138 bilhões. A diferença é pequena, mas simbólica. One Piece hoje briga no andar de cima com as marcas mais valiosas do Japão pop.
O argumento de que One Piece cansou fica fraco quando a gente olha para o mangá. Elbaf não é um arco qualquer. A ilha dos gigantes foi plantada lá atrás, ainda em Little Garden, e virou uma promessa de mais de duas décadas. Quando uma obra demora esse tempo todo para pagar uma ideia e ainda consegue manter gente ansiosa, algo ali está funcionando.
Até julho de 2026, a publicação oficial pela VIZ mostra o mangá chegando ao capítulo 1188, com o capítulo 1189 previsto para 26 de julho. O volume 115, lançado no Japão em 3 de julho, reúne capítulos até o 1179 e já coloca Elbaf no centro das grandes revelações sobre Harald, Loki e o passado dos gigantes. A própria descrição oficial da One Piece.com fala de Luffy e companhia entrando em contra-ataque para salvar Elbaf após descobrirem verdades sobre esse reino.
Oda também deixou um recado bem direto na Jump Festa 2026. Segundo a cobertura da MANTANWEB, o autor comentou que, depois de um longo flashback e de uma mudança de perspectiva sobre Elbaf, a história ficaria ainda mais intensa. Ele ainda citou a ilha que apenas o Rei dos Piratas alcançou e a aparição do homem marcado por chamas, figura que os fãs teorizam há anos por causa do Road Poneglyph restante.
Isso é o oposto de uma obra rodando no automático. One Piece está fechando contas antigas, trazendo personagens prometidos, mexendo em mitologia central e acelerando para a fase mais delicada da jornada. A publicação tem mais pausas do que antigamente, sim. O próprio Oda vem falando sobre cuidar da saúde. Mas ritmo menor não significa perda de força narrativa.
No anime, a Toei tomou uma decisão que parecia impensável anos atrás: abandonou a lógica do episódio semanal infinito e adotou um formato com até 26 episódios por ano, dividido em dois cours. A mudança começou em 2026, junto com o Arco de Elbaph, após uma pausa de janeiro a março.
A Toei explicou que a nova estrutura permite adaptar o mangá com mais conteúdo, ritmo e fidelidade por episódio. Na prática, isso significa uma admissão elegante de algo que todo fã já sabia: o modelo antigo esticava demais. Recapitulação longa, cena prolongada, reação demais, passo demais no corredor. Quem acompanhou Dressrosa semanalmente sabe. Foi teste de resistência espiritual.
Com Elbaf, a promessa é outra. O anime estreou o arco em 5 de abril de 2026 na Crunchyroll, com simulcast internacional, e entrou em uma fase de episódios mais densos. Segundo a Crunchyroll, a saga leva os Chapéus de Palha à lendária terra dos gigantes após a fuga de Egghead, com novos encontros e reencontros esperados há muito tempo.
O episódio 1169 abriu a segunda parte de Elbaf em 12 de julho, após uma pausa curta ligada ao especial One Piece Heroines. Em julho, a Crunchyroll ainda listava One Piece como parte da temporada de verão de 2026, com episódios aos domingos. Para o fã brasileiro, isso mantém a rotina viva, embora a plataforma já tenha irritado bastante gente com atrasos de legenda em português em episódios anteriores. Quando a obra é gigante, qualquer tropeço vira assunto. E com razão.
A parte que mais cria sensação de saturação vem da Netflix. E aqui a estratégia é muito clara. A plataforma não está vendendo apenas One Piece. Está vendendo entradas diferentes para o mesmo universo.
A segunda temporada do live-action, chamada One Piece: Into the Grand Line, estreou em 10 de março de 2026 e levou os Chapéus de Palha por Loguetown, Reverse Mountain, Whisky Peak, Little Garden e Drum Island. O final prepara Alabasta, e a terceira temporada já encerrou produção em junho de 2026, segundo a própria Netflix, com estreia prevista para 2027.
Ao mesmo tempo, o remake The One Piece, produzido pela WIT Studio, estreia na Netflix em fevereiro de 2027. A primeira temporada vai adaptar os primeiros 50 capítulos do mangá em sete episódios, com cerca de 300 minutos no total, chegando até o encontro de Luffy com Sanji no Baratie. É uma nova versão do começo da história, feita para quem olha os mais de mil episódios do anime clássico e desiste antes de apertar o play.
E tem mais: o especial animado LEGO One Piece chega em 29 de setembro de 2026, em duas partes, recontando eventos das duas primeiras temporadas do live-action com Usopp narrando a jornada para Chopper. Oda aparece como produtor executivo ao lado da LEGO, Shueisha, Tomorrow Studios e Atomic Cartoons.
Repara na jogada. Live-action, remake e LEGO revisitam a base da obra. Não é falta de ideia. É funil. O live-action mira o público de série. O remake mira o curioso que quer anime moderno. O LEGO mira família, criança e fã casual. Todas as estradas levam para o mesmo lugar: a história principal.
Aqui entra minha leitura mais crítica. One Piece está longe de estar morto, mas a marca corre um risco real: virar refém do próprio começo. Quando todo lançamento novo volta para East Blue, existe o perigo de transformar Luffy, Zoro, Nami, Usopp e Sanji em bonecos presos eternamente na primeira fase.
Claro que o começo é mágico. Arlong Park ainda emociona. O chapéu na cabeça da Nami continua sendo uma das cenas mais fortes dos shonen. Sanji se despedindo do Baratie ainda quebra qualquer cabra de coração minimamente funcional. Mas One Piece não ficou gigante só por causa disso. Ficou gigante porque cresceu.
A obra amadureceu com Alabasta, Water 7, Enies Lobby, Marineford, Dressrosa, Whole Cake, Wano, Egghead e agora Elbaf. Se o mercado insistir demais em vender apenas o “One Piece de entrada”, a franquia pode passar a sensação de que está sempre recomeçando, mesmo quando o mangá está avançando para respostas enormes.
Esse é o ponto que separa cansaço de história e cansaço de marketing. O fã não está necessariamente cansado de One Piece. Ele está cansado de ser puxado por dez braços ao mesmo tempo, igual personagem preso em golpe do Nico Robin. Tem live-action, anime semanal, mangá, remake, especial, carta, evento, boneco, colaboração gastronômica, jogo e campanha. Uma hora o feed cansa antes do coração.
O motivo de eu não comprar a tese do esgotamento é simples: o centro da franquia ainda é o mangá. Enquanto a história principal continuar andando com peso, todas as outras versões funcionam como satélites. Algumas vão ser boas. Outras vão ser só produto. Algumas vão parecer carinho com fã. Outras vão parecer planilha com chapéu de palha.
A diferença está na ordem. Quando o produto serve à história, tudo bem. Quando a história começa a servir ao produto, aí o alarme toca.
Até agora, One Piece parece estar no primeiro caso. Oda supervisiona projetos grandes, o mangá segue abrindo portas para a reta final, a Toei ajustou o anime para melhorar o ritmo, a Netflix expandiu a base de público e a Bandai Namco continua alimentando a comunidade de card game e colecionáveis. Pode dar preguiça? Pode. Mas preguiça de marketing não é o mesmo que fadiga narrativa.
O público pode até reclamar da enxurrada, mas os números dizem que ainda está comprando, assistindo, lendo e discutindo. E talvez esse seja o verdadeiro sinal de força: One Piece virou grande o suficiente para gerar cansaço ao redor sem perder o coração da jornada.
A pergunta que fica é se a Shueisha, a Toei, a Netflix e a Bandai vão saber respeitar esse equilíbrio. Porque Luffy ainda está navegando. O perigo é o mercado tentar vender a bússola, o mapa, a âncora, o remo e o barco reserva antes de deixar a gente chegar em Laugh Tale.
ASSISTA AO VÍDEO COMPLETO DO CABRA GEEKI SOBRE O TEMA
O Cabra Geeki também publicou um vídeo no YouTube aprofundando essa discussão sobre se One Piece cansou ou se a gente está confundindo excesso de produto com força da história principal. No vídeo, a análise entra nos números, na estratégia da Netflix, no peso de Elbaf e no que isso pode significar para o futuro da obra de Eiichiro Oda. O conteúdo ficará logo abaixo para quem quiser continuar essa conversa em vídeo.
P: One Piece cansou mesmo?
R: Os números não indicam isso. One Piece virou a principal franquia da Toei Animation no ano fiscal encerrado em março de 2026 e segue forte no mangá, anime, live-action, card game e streaming. O que existe é uma sensação real de excesso de produtos ligados à marca.
P: One Piece passou Dragon Ball na Toei?
R: Sim, no recorte dos dados oficiais da Toei Animation para o ano fiscal de 2026. Somando licenciamento doméstico, distribuição internacional e licenciamento internacional, One Piece gerou cerca de 27,84 bilhões de ienes, acima dos 20,8 bilhões de Dragon Ball.
P: One Piece passou Gundam na Bandai Namco?
R: Não. Nos dados oficiais da Bandai Namco, Gundam segue liderando com folga no grupo total e também no recorte de Toys and Hobby Japan. One Piece aparece muito forte, com 139,3 bilhões de ienes no grupo total e 95,1 bilhões em brinquedos e hobby no Japão.
P: O anime de One Piece virou anime de temporada?
R: Sim. A partir de 2026, a Toei adotou um formato com até 26 episódios por ano, dividido em dois cours. A mudança busca melhorar ritmo, produção e adaptação do mangá, principalmente no Arco de Elbaph.
P: Quando estreia The One Piece, o remake da Netflix?
R: The One Piece estreia em fevereiro de 2027 na Netflix. A primeira temporada terá sete episódios, cerca de 300 minutos no total, adaptando os primeiros 50 capítulos do mangá até o encontro de Luffy com Sanji no Baratie.
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