7 momentos que definiram Constantine nos quadrinhos da DC
Artigo por
Ítalo Cunha
Relembre alguns momentos que definiram Constantine nos quadrinhos, de Swamp Thing a Hellblazer, e entenda por que ele segue tão fascinante
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Eu conheci Constantine do jeito que muita gente da minha geração conheceu: pelo filme de 2005 com Keanu Reeves. Eu tinha 12 anos quando vi aquele sujeito cansado, fumante, insolente, brigando com demônios como se estivesse resolvendo problema de repartição pública. Na época, eu não sabia que o Constantine dos quadrinhos era bem diferente daquele exorcista americano de sobretudo preto. Só sabia que havia algo ali que grudava na cabeça.
Anos depois, quando fui atrás de Hellblazer, entendi que o personagem era muito maior, mais sujo e mais interessante do que a versão do cinema deixava parecer. John Constantine não é apenas um mago da DC. Ele é um sobrevivente profissional. Um manipulador. Um covarde em alguns dias, um herói torto em outros, e quase sempre alguém que vence deixando um rastro de gente machucada atrás.

Essa lista reúne 7 momentos que definiram Constantine nos quadrinhos. Não é uma lista de “cenas mais poderosas” no sentido tradicional. É uma seleção de viradas que explicam quem ele é, por que ele funciona e por que continua fascinando leitores mesmo quando faz coisas difíceis de defender. Em cada ponto, eu trago três leituras: a importância para a mitologia, o impacto moral no personagem e a minha visão como alguém que chegou nele pelo filme, mas ficou pelos quadrinhos.

1. A primeira aparição em Swamp Thing #37
John Constantine aparece oficialmente em Swamp Thing #37, publicado em 1985, durante a fase de Alan Moore. A história se chama Growth Patterns, e já apresenta quase tudo que faria o personagem funcionar depois: cigarro, sarcasmo, mistério, manipulação e uma presença que parece sempre saber mais do que todo mundo na sala. Ele entra como conselheiro ocultista do Monstro do Pântano, mas rouba atenção rápido demais para ficar só como coadjuvante.
Do ponto de vista da mitologia, esse momento é enorme porque Constantine nasce dentro de uma HQ de terror filosófico, não dentro de uma revista tradicional de super-herói. Isso explica muita coisa. Ele não foi criado para salvar a cidade com pose bonita. Foi criado para caminhar entre forças que nem sempre entendemos, cutucar feridas espirituais e fazer perguntas desconfortáveis. Desde o começo, ele era menos Doutor Estranho e mais um sujeito de pub que aprendeu a falar com o inferno.
Na moral do personagem, a primeira aparição já planta a semente do problema: Constantine ajuda, mas quase nunca de graça. Ele orienta, mas também usa. Ele parece aliado, mas você nunca sabe se está sendo conduzido para uma vitória ou para uma armadilha. Para mim, esse é o primeiro grande choque ao sair do filme de 2005 e entrar nos quadrinhos. O Constantine original não precisa parecer poderoso. Ele parece perigoso porque pensa dois passos à frente e deixa os outros pagarem parte da conta.
2. Gary Lester e o preço de vencer em Hellblazer #1
Quando Hellblazer ganha sua série própria em 1988, Jamie Delano não tenta transformar John em um protagonista simpático. Pelo contrário. Em Original Sins, o primeiro arco da revista, Constantine reencontra Gary Lester, um velho amigo destruído pelo vício e perseguido por uma entidade demoníaca. John arma uma solução cruel: usa Gary como peça para prender o demônio Mnemoth, sabendo que isso custará a vida do amigo.
Esse momento define a estrutura emocional de Hellblazer. Constantine vence. O mundo não acaba. O demônio é contido. Só que a vitória vem com um cadáver conhecido, um fantasma novo na consciência e a sensação de que John não atravessa uma história sem deixar alguém para trás. Isso diferencia o personagem de boa parte dos heróis da DC. Superman salva pessoas como princípio. Batman falha e transforma culpa em missão. Constantine salva o tabuleiro, mas sacrifica peças que tinham nome, rosto e passado.
A leitura moral aqui é brutal. Dá para dizer que John fez o necessário. Também dá para dizer que ele escolheu o caminho em que outra pessoa morria no lugar dele. As duas leituras cabem. E é por isso que funciona. Como leitor, eu acho esse começo quase perfeito porque já avisa: se você quer acompanhar Constantine, não espere limpeza emocional. Ele pode estar do lado certo, mas raramente chega lá com as mãos limpas.

3. Newcastle e Astra, a culpa que nunca abandona John
Se existe um trauma fundador para Constantine, ele atende pelo nome de Newcastle. A história aparece com força em Hellblazer #11, no capítulo Newcastle: A Taste of Things to Come. Ali descobrimos o desastre envolvendo Astra Logue, uma criança levada ao inferno depois de uma tentativa fracassada de exorcismo. John e sua turma mexeram com algo maior do que podiam controlar. O resultado foi devastador, e Constantine acabou internado em Ravenscar, uma instituição psiquiátrica.
Para a mitologia, Newcastle é a origem do Constantine que conhecemos em Hellblazer. Antes dali, ele podia ser só um jovem arrogante brincando de ocultismo com pose punk. Depois dali, vira alguém perseguido por uma culpa que não passa. Astra não é só uma vítima. Ela é o lembrete de que John já falhou do pior jeito possível, e que toda sua inteligência não foi suficiente para salvar uma criança.
O ponto de vista psicológico talvez seja o mais forte. Constantine não é cínico porque “acha tudo uma piada”. Ele é cínico porque o cinismo virou armadura. Se ele sentir tudo de uma vez, quebra. Se ele admitir cada morte, cada erro e cada manipulação, desmorona. Então ele fuma, provoca, ironiza e continua andando. Para mim, Newcastle é o momento em que o personagem deixa de ser apenas estiloso e vira trágico. Você entende que o humor dele não é leveza. É mecanismo de sobrevivência.

4. Hold Me, quando Constantine prova que ainda sente
Hellblazer #27, escrito por Neil Gaiman e desenhado por Dave McKean, é um daqueles capítulos que parecem pequenos até você perceber que ele diz quase tudo sobre o personagem. Em Hold Me, John encontra o fantasma de um homem em situação de abandono que só queria ser abraçado. A história fala de solidão, frio, invisibilidade social e da necessidade humana mais básica: ser reconhecido por alguém.
Do ponto de vista da série, esse momento é essencial porque mostra que Hellblazer nunca foi só sobre demônios. O terror mais forte ali muitas vezes vem da cidade, da pobreza, da negligência e da indiferença. Gaiman usa Constantine quase como testemunha de uma tristeza maior. O sobrenatural está presente, claro, mas a assombração nasce de algo muito real.
Na moral do personagem, Hold Me desmonta a ideia de que John é apenas um canalha brilhante. Ele pode ser cruel, sim. Pode manipular amigos, inimigos e amantes. Mas existe humanidade nele. Existe compaixão, ainda que torta, atrasada e escondida sob camadas de ironia. Eu gosto muito desse capítulo porque ele lembra que Constantine não é interessante só quando engana o inferno. Às vezes, ele é mais forte quando simplesmente fica ali, encarando a dor de alguém que o mundo ignorou.

5. The Family Man e o confronto com o mal humano
O arco The Family Man, publicado em Hellblazer #23-24 e #28-33, coloca Constantine diante de um tipo diferente de horror. Aqui não estamos falando de demônio antigo, maldição cósmica ou ritual infernal. O inimigo é um assassino em série humano, metódico e monstruoso, que força John a lidar com uma pergunta incômoda: o que ele faz quando magia não resolve o problema moral?
Esse momento é importante porque tira Constantine da zona em que ele parece mais confortável. Contra demônios, John sabe trapacear. Contra entidades, sabe negociar. Contra criaturas do inferno, sabe usar brecha, nome, pacto e vaidade. O Family Man exige outra coisa. Ele obriga John a encarar violência humana sem o conforto de chamar aquilo de “mal sobrenatural”.
A leitura moral é uma das mais duras da fase Delano. Constantine precisa decidir se consegue matar em sangue frio. Não é uma luta estilizada, não é explosão de magia, não é duelo de capas. É uma escolha. E essa escolha pesa porque aproxima John dos monstros que ele combate. Para mim, esse arco é um dos melhores exemplos de como Hellblazer entendia horror adulto. O inferno é assustador, mas o sujeito comum que mata famílias e volta para casa talvez assuste mais.

6. Dangerous Habits e o golpe contra o inferno
Se alguém me perguntasse qual arco melhor resume Constantine para um leitor novo, eu provavelmente apontaria Dangerous Habits, de Garth Ennis, publicado em Hellblazer #41-46. É a história em que John descobre que está com câncer terminal no pulmão. Nada de maldição elegante. Nada de entidade obscura. O cigarro, um dos símbolos do personagem, cobra a conta. A partir daí, ele precisa encontrar uma maneira de escapar da morte e da condenação.
A importância cultural desse arco é gigantesca. Ele influenciou bastante a imagem popular do personagem e dialoga diretamente com elementos usados no filme de 2005. A premissa do Constantine condenado, do câncer, da negociação com forças infernais e da recusa em aceitar o próprio fim virou uma espécie de DNA público do personagem. Mesmo quem nunca leu Hellblazer reconhece algo desse arco nas adaptações.
Moralmente, Dangerous Habits é Constantine em estado puro. Ele está apavorado, mas não pede piedade. Ele está morrendo, mas ainda blefa. Ele enfrenta forças muito maiores não porque é mais poderoso, mas porque entende vaidade, interesse e medo melhor do que seus inimigos. A beleza está nisso: John não vence o inferno sendo santo. Vence sendo mais esperto que os demônios. Eu acho esse arco fascinante porque ele transforma autodestruição em trama. O cigarro quase mata John, mas a capacidade dele de mentir para entidades eternas salva sua pele. É absurdo, triste e brilhante.

7. Justice League Dark e a entrada definitiva no centro da DC
A entrada de Constantine em Justice League Dark, a partir de 2011, é um divisor de águas mais polêmico. Para leitores do Vertigo, essa versão mais integrada ao Universo DC pode parecer domesticada demais. Para leitores novos, foi uma porta enorme. De repente, John estava mais próximo de Zatanna, Deadman, Madame Xanadu, Enchantress e até da Liga da Justiça tradicional. Ele deixou de ser apenas o mago sujo das margens e virou peça recorrente do lado místico da DC.
Do ponto de vista editorial, isso muda tudo. Constantine passa a circular em um ambiente onde Batman, Superman e Mulher-Maravilha existem de forma mais presente. A própria sinopse de Justice League Dark #1 vende a ideia de ameaças que nem a Liga tradicional consegue resolver. Isso coloca John em uma posição curiosa: ele continua sendo alguém em quem não dá para confiar totalmente, mas agora opera em um tabuleiro de super-heróis mais visível.
A leitura crítica é inevitável. Ganha-se alcance, perde-se sujeira. O Constantine de Hellblazer funcionava porque parecia preso a ruas, bares, apartamentos mofados, traumas políticos e fantasmas pessoais. O Constantine da DC principal precisa caber em crossovers, equipes e grandes ameaças compartilhadas. Isso pode diluir o personagem. Ao mesmo tempo, também o mantém vivo para novas gerações. Eu mesmo, que entrei pelo filme, entendo muito bem o valor dessas portas de entrada. Às vezes a versão mais acessível leva o leitor para a versão mais amarga, e é lá que o personagem mostra seu verdadeiro tamanho.
Por que Constantine continua tão forte
O que une esses sete momentos é uma ideia simples: Constantine é definido menos pelo poder e mais pelo custo. Ele não é o maior mago da DC porque solta o feitiço mais bonito. Ele é relevante porque entende gente, culpa, desejo, vício, medo e arrogância. Seu maior superpoder é saber onde apertar. Às vezes no inimigo. Às vezes em um amigo. Muitas vezes em si mesmo.
Também acho que ele continua funcionando porque envelhece bem com o leitor. Aos 12 anos, vendo Keanu Reeves no filme, eu achava Constantine estiloso porque ele enfrentava demônios de frente e parecia não se curvar a ninguém. Aos 30, lendo as HQs, o que mais me pega é outra coisa: ele é um personagem sobre consequência. Sobre carregar escolhas ruins. Sobre sobreviver sem virar exemplo. Sobre fazer a coisa certa pelo caminho errado e descobrir que isso também cobra juros.
No fundo, Constantine é fascinante porque não nos oferece conforto moral. Ele salva pessoas, mas machuca outras. Ele odeia monstros, mas reconhece um pedaço deles em si mesmo. Ele engana o inferno, mas nunca escapa totalmente da própria culpa. E talvez seja por isso que, quase 40 anos depois da primeira aparição em Swamp Thing, John Constantine ainda parece tão atual. Em um universo cheio de heróis que brilham, ele continua sendo o cara que acende um cigarro no escuro e pergunta qual pecado a gente está fingindo que não vê.
FAQ
P: Qual foi a primeira aparição de John Constantine nos quadrinhos?
R: A primeira aparição oficial de John Constantine aconteceu em Swamp Thing #37, publicado em 1985, durante a fase escrita por Alan Moore.
P: Qual arco de Constantine inspirou o filme de 2005?
R: O filme de 2005 com Keanu Reeves bebe bastante de Dangerous Habits, especialmente na ideia do câncer terminal e da relação de Constantine com o inferno. Também há elementos ligados ao material reunido em Original Sins.
P: Por onde começar a ler Constantine?
R: Hellblazer: Original Sins é o começo natural da série solo. Para quem quer um arco mais direto e icônico, Dangerous Habits costuma funcionar muito bem.
P: Constantine é herói ou anti-herói?
R: Ele funciona melhor como anti-herói. John costuma combater ameaças reais, mas usa manipulação, mentira e sacrifícios moralmente complicados para vencer.
P: Justice League Dark é uma boa porta de entrada?
R: Sim, principalmente para quem já está acostumado ao Universo DC. Só vale saber que o tom é diferente do Hellblazer clássico da Vertigo, que é mais adulto, sombrio e urbano.
P: Qual é o trauma mais importante de Constantine?
R: Newcastle, envolvendo Astra Logue, é o trauma central. Ele define a culpa, o cinismo e boa parte da autodestruição emocional do personagem.



