Artigo por
Ítalo Cunha
Empresas ligadas ao criador de Saint Seiya alegam desvio de aproximadamente 4,68 bilhões de ienes ao longo de seis anos

Uma disputa financeira envolvendo o criador de Os Cavaleiros do Zodíaco ganhou proporções gigantescas no Japão. Masami Kurumada e três empresas ligadas à administração de seus direitos autorais afirmam ter sofrido um desvio de aproximadamente 4,68 bilhões de ienes, valor que inclui receitas de licenciamento. O grupo entrou com uma ação no Tribunal Distrital de Tóquio cobrando cerca de 2,886 bilhões de ienes que ainda não teriam sido recuperados.
A acusação envolve um ex-gerente que também ocupava cargo executivo nas empresas de Kurumada, além de outras pessoas e companhias. Até o momento, trata-se de uma alegação apresentada pelos autores da ação, e não de uma condenação definitiva. As informações foram divulgadas pela imprensa japonesa e pela Jiji Press.
De acordo com a acusação, o antigo funcionário controlava áreas sensíveis das empresas, incluindo contabilidade, pagamentos e negociações com parceiros externos. Ele teria trabalhado nessa posição entre 2018 e 2024, período em que as companhias administravam receitas relacionadas às obras do mangaká.
Entre as empresas envolvidas está a Kurumada Production, responsável pela gestão de direitos autorais. O processo foi movido contra 11 pessoas e empresas, segundo informações do site jurídico japonês Bengo4.
A defesa de Kurumada afirma que o ex-gerente teria criado uma empresa com nome semelhante ao de uma companhia legítima ligada ao mangaká. A partir disso, valores que deveriam ser pagos como taxas de licenciamento teriam sido enviados para a conta da nova empresa.
Também são citadas transferências não autorizadas a contas controladas pelo antigo executivo, por companhias relacionadas e por outras pessoas. Outro método descrito na ação envolve contratos de seguro e resseguro, que teriam permitido o deslocamento do dinheiro até uma empresa estrangeira sob controle do acusado.
Parte dos recursos teria sido investida em criptomoedas. Após a descoberta do caso, cerca de 1,8 bilhão de ienes foi recuperado, em parte porque os ativos digitais teriam se valorizado. O valor restante é justamente o centro da cobrança apresentada à Justiça. O Bengo4 detalhou as três formas de movimentação apontadas pelos representantes de Kurumada.
O caso teria vindo à tona no início de 2024, depois que o escritório regional de tributação de Tóquio identificou movimentações consideradas suspeitas. Segundo a acusação, o órgão enviou uma solicitação de esclarecimentos às empresas em janeiro daquele ano.
O ex-gerente, porém, teria respondido sem informar Kurumada. A denúncia afirma que ele imitou a caligrafia do artista e utilizou carimbos normalmente usados por ele para enviar uma resposta às autoridades.
Kurumada teria descoberto a existência da investigação somente quando passou a conversar diretamente com o órgão tributário. A partir desse contato, o fluxo de dinheiro teria sido analisado com mais cuidado, revelando uma dimensão maior do que a imaginada inicialmente.
O episódio é especialmente grave porque a pessoa responsável pela administração financeira teria permanecido próxima do autor durante décadas. Kurumada declarou que conhecia o ex-funcionário havia aproximadamente 25 anos, desde o período em que trabalhava em Ring ni Kakero 2.
O homem teria começado como colaborador editorial e depois assumido a função de gerente pessoal. Com o passar dos anos, tornou-se responsável por tarefas que permitiam acesso a documentos, contratos, contas bancárias e negociações com empresas externas.
Um dos pontos mais curiosos do processo envolve a relação pessoal entre Kurumada e o ex-gerente. Os representantes do mangaká afirmam que o funcionário teria criado uma barreira entre o artista e outras pessoas.
Segundo essa versão, o ex-gerente dizia a editores e parceiros que Kurumada era uma pessoa que não gostava de contato humano, tinha dificuldade para conversar e preferia não lidar diretamente com terceiros. Essa suposta imagem teria servido para impedir que outras pessoas verificassem informações diretamente com o autor.
Kurumada contestou essa descrição durante a coletiva de imprensa. Ele reconheceu que não é alguém extremamente sociável, mas afirmou que consegue conversar normalmente com pessoas que conhece pela primeira vez.
Essa alegação é importante porque ajuda a explicar como uma movimentação financeira tão grande teria permanecido escondida por tanto tempo. Não seria apenas uma questão de fraude contábil, mas também de controle sobre quem podia falar com o dono das empresas e quem recebia as informações comerciais.
O caso ainda precisa ser analisado pela Justiça. Portanto, não é correto afirmar que todos os envolvidos foram considerados culpados ou que cada detalhe apresentado na acusação já foi comprovado.
Durante a coletiva, Masami Kurumada disse que ficou profundamente abalado ao descobrir o que teria acontecido. O autor relatou que chegou a sentir desconfiança em relação às pessoas próximas e que não conseguia acreditar na dimensão do problema.
As empresas teriam ficado com pouco dinheiro disponível nas contas quando o caso foi descoberto. A situação teria colocado em risco o pagamento de impostos e a continuidade das próprias companhias.
Kurumada afirmou que, sem a ajuda de advogados, editoras e parceiros da indústria de animação, sua estrutura profissional poderia ter entrado em colapso. Ele chegou a dizer que, em uma situação ainda pior, poderia ter deixado de trabalhar como mangaká.
O prejuízo também teria afetado uma exposição de originais planejada para 2024 em Tóquio. O evento acabou cancelado, e o artista pediu desculpas aos fãs que esperavam conhecer seu trabalho de perto.
A organização pretende realizar uma nova exposição em 2027, desta vez em Ikebukuro. Kurumada também declarou que deseja continuar escrevendo para os leitores japoneses e para os fãs de suas obras ao redor do mundo.
Para quem acompanha Saint Seiya, a notícia pode parecer apenas um escândalo financeiro envolvendo o autor. A realidade é mais ampla. Os Cavaleiros do Zodíaco não é somente um mangá antigo que continua popular. A obra envolve licenciamento internacional, figuras de ação, jogos, animações, eventos, produtos colecionáveis e acordos com empresas de diferentes países.
Quanto maior o alcance de uma propriedade intelectual, mais complicada fica a administração dos direitos. Um criador pode continuar sendo o dono artístico da obra, mas depender de outras pessoas para lidar com contratos, valores, impostos e negociações internacionais.
Esse é o ponto que quase sempre fica escondido quando uma franquia faz sucesso. O público vê uma nova armadura, um filme ou uma coleção de bonecos chegando às lojas. Por trás disso existem contratos, repasses, porcentagens e obrigações que precisam ser fiscalizados.
A denúncia apresentada pelas empresas de Kurumada mostra como uma organização muito concentrada em uma única pessoa pode se tornar vulnerável. O autor dedicou a carreira ao desenho e à escrita, enquanto outras tarefas ficaram nas mãos de alguém de confiança.
A confiança é necessária, mas não substitui mecanismos de controle. Auditorias independentes, divisão de responsabilidades e conferência constante dos contratos podem evitar que uma pessoa tenha poder demais sobre contas e negociações.
Até agora, não há confirmação de que a ação tenha interrompido novos projetos de Saint Seiya, produtos licenciados ou publicações relacionadas à franquia. Também não foi divulgado nenhum anúncio oficial indicando mudanças nos contratos internacionais da obra.
A existência do processo pode provocar ajustes na maneira como as empresas de Kurumada administram seus negócios, mas ainda é cedo para prever consequências na produção de mangás, animações ou produtos.
É possível que parceiros comerciais passem a exigir mais documentos e auditorias antes de fechar novos acordos. Isso não significa que a franquia esteja paralisada. Significa apenas que uma crise dessa dimensão costuma gerar mudanças internas.
Também é necessário separar o autor de sua criação. Saint Seiya possui uma história editorial construída por décadas, com participação de editoras, estúdios, fabricantes e outros profissionais. O processo não apaga a importância cultural da obra, mas revela que até um universo de deuses, guerreiros e batalhas cósmicas depende de organização financeira no mundo real.
A situação tem uma ironia amarga. Masami Kurumada criou histórias sobre lealdade, sacrifício e confiança entre companheiros, mas afirma ter sido prejudicado justamente por alguém que ocupava uma posição de extrema proximidade.
Ainda não existe decisão judicial sobre a responsabilidade dos acusados. O que existe, por enquanto, é uma ação de indenização, uma alegação de desvio bilionário e um autor tentando recuperar o controle de sua própria estrutura profissional.
Para os fãs brasileiros, acostumados a lembrar de Seiya, Shiryu, Hyoga, Shun e Ikki como símbolos de resistência, a notícia provoca uma sensação estranha. Desta vez, a batalha não acontece em uma Casa do Zodíaco, mas em contas bancárias, contratos e documentos fiscais.
Kurumada afirmou que pretende continuar trabalhando. Se depender dessa declaração, a história do criador de Saint Seiya ainda está longe de terminar. Resta acompanhar o processo e descobrir quanto dessa acusação será confirmado nos tribunais.
P: O que Masami Kurumada está cobrando na Justiça?
R: As empresas ligadas ao autor pedem aproximadamente 2,886 bilhões de ienes em indenização. O valor corresponde à parte do prejuízo estimado que ainda não teria sido recuperada.
P: Quanto dinheiro teria sido desviado das empresas?
R: A acusação aponta um prejuízo total de aproximadamente 4,68 bilhões de ienes entre 2018 e 2024. Cerca de 1,8 bilhão de ienes já teria sido recuperado.
P: O ex-gerente de Kurumada já foi condenado?
R: Não. Até o momento, existe uma ação judicial com acusações apresentadas pelas empresas do mangaká. A responsabilidade dos envolvidos ainda será analisada pela Justiça japonesa.
P: Como o suposto desvio teria acontecido?
R: A acusação menciona transferências para contas ligadas ao ex-gerente, redirecionamento de valores de licenciamento e uso de estruturas de seguro e resseguro. Os detalhes ainda fazem parte do processo.
P: O caso pode cancelar novos projetos de Saint Seiya?
R: Não há confirmação de cancelamento ou paralisação de novos projetos. A ação pode provocar mudanças administrativas, mas a franquia continua com seus direitos e atividades comerciais em andamento.
Material consultado na apuração desta matéria.
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