Batman Parte II entra no debate após roteirista dizer que Hollywood recebe mais ofertas de games do que quadrinhos, revelando uma virada perigosa

Hollywood parece ter encontrado um novo brinquedo caro para chamar de seu: os videogames. A discussão ganhou força depois que Mattson Tomlin, co-roteirista de Batman Parte II, afirmou que está recebendo muito mais propostas para adaptações de jogos do que para projetos baseados em quadrinhos. A fala não é uma estatística oficial da indústria, mas funciona como termômetro de bastidor. E, sinceramente, o termômetro está marcando febre alta.
Mattson Tomlin comentou no X sobre a possível adaptação live-action de Mega Man, projeto ao qual ele esteve ligado no passado. Ao responder sobre o assunto, o roteirista disse que Hollywood está migrando de uma obsessão por quadrinhos para uma obsessão por videogames. Depois, ele foi mais específico: segundo sua própria experiência em 2026, recebeu pelo menos cinco vezes mais ofertas para adaptações de games do que para adaptações de HQs.
O detalhe curioso é que Tomlin está justamente envolvido em um dos filmes de quadrinhos mais aguardados dos próximos anos. Batman Parte II segue em pré-produção, com Matt Reeves novamente no comando e Robert Pattinson de volta ao papel principal. O longa está marcado para 1º de outubro de 2027 e continuará fora do DCU principal de James Gunn, dentro da linha Elseworlds.
Ou seja, não é um roteirista distante do gênero falando mal de filme de herói para ganhar like. É alguém dentro do jogo percebendo que a bola do mercado mudou de lado.
A resposta curta é dinheiro. A resposta menos preguiçosa é: Hollywood quer franquias com público fiel, universo expandido, personagem reconhecível e potencial de vender além do filme. Durante anos, os quadrinhos entregaram tudo isso. Marvel e DC dominaram salas, memes, brinquedos, camisetas, streaming e calendário de lançamentos.
Só que o desgaste chegou. Depois de mais de uma década de super-heróis no centro da cultura pop, parte do público cansou da fórmula. Não necessariamente cansou dos personagens, mas cansou de promessas gigantes, multiversos confusos, participações especiais e filmes que parecem trailer de outro filme. O fã começou a pedir história fechada, personagem bem escrito e emoção real. Olha que ousadia, né?
Os games entram como nova reserva de propriedade intelectual. Super Mario Bros. O Filme mostrou que uma adaptação pode passar de US$ 1 bilhão sem pedir desculpa por ser colorida e assumidamente feita para o fã. Sonic construiu uma franquia estável no cinema. The Last of Us provou que jogo pode virar série adulta prestigiada. Fallout mostrou que dá para respeitar o espírito do game sem copiar uma campanha específica. A mensagem para executivos ficou clara: videogame não é mais “coisa de nicho”. É mina de ouro com botão de start.
O risco dessa nova febre é Hollywood repetir com os games o mesmo erro que cometeu com quadrinhos. Quando um formato dá certo, a indústria não aprende a lição com calma. Ela compra tudo, anuncia tudo, acelera tudo e depois fica surpresa quando o público reclama que metade parece feito no modo automático.
A lista de projetos é grande. GamesRadar cita produções como Return to Silent Hill, Iron Lung, Exit 8 e Mortal Kombat 2 entre lançamentos recentes, além de novas adaptações de Resident Evil, Street Fighter, Sekiro: No Defeat, Cyberpunk: Edgerunners 2, Elden Ring pela A24 e Death Stranding em desenvolvimento. É muita coisa. Algumas podem ser excelentes. Outras podem virar aquele filme que a gente assiste só para sofrer em comunidade.
A questão é que game não se adapta como HQ. Quadrinho já é uma linguagem visual sequencial. Cinema e HQ conversam por enquadramento, composição e ritmo de cena. Videogame tem outra camada: interatividade. O jogador não apenas vê o personagem sofrer. Ele aperta botão, falha, tenta de novo, decora padrão, explora mapa e cria memória pessoal. Tirar isso e transformar em narrativa passiva exige cuidado.
Por isso The Last of Us funcionou tão bem. A série entendeu que não precisava simular gameplay. Precisava preservar relação, tensão moral e consequência. Já adaptações ruins costumam cair na armadilha contrária: enchem a tela de referência, nome conhecido e easter egg, mas esquecem de construir drama para quem nunca segurou o controle.
A fala de Tomlin não significa que os filmes de quadrinhos acabaram. Isso seria exagero de thumbnail desesperada. Batman Parte II, Spider-Man: Brand New Day e novos projetos da DC e da Marvel ainda devem movimentar muita grana. O problema é que o gênero perdeu a aura de inevitabilidade.
Antes, filme de super-herói parecia evento automático. Hoje, precisa convencer. O público não compra mais qualquer promessa só porque tem logo famoso no pôster. Joker 2 decepcionou parte do mercado, Supergirl teve uma estreia abaixo do esperado segundo comparações da imprensa especializada, e a Marvel passou por um período mais espaçado entre grandes lançamentos. Nada disso mata o gênero, mas muda a conversa.
Batman é um caso à parte porque funciona quase como gênero próprio. O personagem suporta noir, ação, policial, terror, drama psicológico e até aventura estilizada. The Batman, de 2022, deu certo porque não tentou vender “universo compartilhado” como prato principal. Vendeu atmosfera, investigação e uma Gotham suja que parecia respirar mofo. Se Batman Parte II mantiver essa identidade, ele não precisa disputar a mesma prateleira cansada dos super-heróis genéricos.
O mais interessante na fala de Tomlin é perceber que Hollywood está tentando trocar uma fonte de segurança por outra. Quadrinhos eram o cofre. Agora, games parecem o novo cofre. Só que cofre nenhum salva roteiro ruim.
A boa adaptação nasce quando alguém entende o coração da obra. Street Fighter não precisa virar drama realista sisudo para funcionar. Resident Evil não precisa copiar a Capcom cena por cena, mas precisa entender terror, conspiração biológica e sobrevivência. Elden Ring não pode ser apenas um desfile de chefes bonitos. Death Stranding não pode virar só homem andando com mochila em paisagem triste, embora, sejamos justos, isso já é meio caminho andado.
O público gamer é exigente de um jeito específico. Ele nota detalhe, lembra lore, compara versão, discute personagem secundário e percebe quando um estúdio só comprou nome famoso. Ao mesmo tempo, esse público também pode abraçar uma adaptação se sentir respeito verdadeiro. Fallout é bom exemplo disso: não contou a história dos jogos, mas entendeu o universo.
A ironia é ótima. Enquanto o roteirista de Batman Parte II fala sobre Hollywood correndo atrás de videogame, o próprio Batman continua sendo uma das poucas marcas de quadrinhos com força para furar qualquer moda. Isso diz muito sobre a diferença entre personagem forte e tendência de mercado.
Batman não depende só de fase da Marvel, de multiverso ou de calendário compartilhado. Ele tem um imaginário próprio. Gotham, o Batmóvel, o Asilo Arkham, o Charada, o Pinguim, a corrupção, a dor familiar, a obsessão por controle. Tudo isso continua funcionando porque é drama humano vestido de morcego. Ridículo se explicar demais, poderoso quando funciona.
A fala de Tomlin não deve ser lida como enterro dos quadrinhos. Deve ser lida como alerta. Hollywood está mudando o foco, mas continua procurando a mesma coisa: franquias com público fiel e risco menor. A diferença é que agora os executivos estão olhando para controle, console, Steam, Twitch e nostalgia gamer.
Se aprenderem com os acertos recentes, podemos entrar numa fase excelente de adaptações de jogos. Se repetirem a pressa dos piores anos dos super-heróis, prepare o balde de pipoca e a paciência. Porque o chefão final de Hollywood nunca foi falta de IP. Sempre foi achar que IP substitui boa história.
P: O que Mattson Tomlin falou sobre adaptações de games?
R: O roteirista de Batman Parte II disse que Hollywood parece estar migrando da obsessão por quadrinhos para uma obsessão por videogames. Segundo ele, em 2026 recebeu cerca de cinco vezes mais ofertas para adaptações de games do que de HQs.
P: Quem é Mattson Tomlin?
R: Mattson Tomlin é roteirista e produtor, conhecido por trabalhos como Terminator Zero e por colaborar com Matt Reeves em Batman Parte II. Ele também esteve ligado no passado a uma adaptação de Mega Man.
P: Batman Parte II faz parte do DCU de James Gunn?
R: Não. Batman Parte II segue como uma produção Elseworlds, fora da continuidade principal do novo DCU. O filme continua o universo iniciado por The Batman, de 2022.
P: Quando estreia Batman Parte II?
R: A estreia de Batman Parte II está marcada para 1º de outubro de 2027. O filme segue em pré-produção, com Matt Reeves na direção e Robert Pattinson retornando como Bruce Wayne.
P: Hollywood vai abandonar filmes de quadrinhos?
R: Não. O que parece acontecer é uma mudança de prioridade, com mais interesse em adaptações de videogames. Filmes de quadrinhos continuam relevantes, mas já não têm a mesma sensação de domínio absoluto de anos atrás.
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